Por Sara Goes na Atitude Popular.
Eu avisei. Tenho assistido com deleite à decepção crescente ao redor de Ciro Gomes. Assim como sua suposta genialidade, que só existe fora do Ceará, essa desilusão também não acontece por aqui. No Ceará, faz tempo que é óbvio quem Ciro realmente é. E vou nem mentir: sinto quase tanto prazer em ver isso acontecer quanto sinto de vencer o candidato André Fernandes (PL). Me arreta profundamente ver pessoas que antes me diminuíram por descatitar Ciro agora dizerem que “sempre souberam” das falhas dele. Mentira, sabiam nada. Quando eu alertava sobre o ex-político, era vista como alguém incapaz de julgar, como se fosse impregnada de “fanatismo petista”. Com a máscara de Ciro caindo aos olhos de muitos, eles fingem que nunca caíram no canto da sereia. Ora, me compre um bode. Diziam que eu era jovem demais para desenvolver qualquer tese sobre ele. Nesse sentido, confesso que não me defendia e até gostava vendo que, na tentativa de me desqualificar, diminuíam pela metade a minha idade. Claro, sabia que era um argumento machista, mas se o machismo me paralisasse meu modem estaria desligado.
Esse deslumbramento não é novidade. Foi o mesmo com Sérgio Moro durante a operação Lava Jato. Moro foi ovacionado por quase toda a imprensa e pela classe política, sendo vendido como o herói da moralidade. Quem ousava questionar suas ações era imediatamente rotulado de corrupto ou defensor incondicional do PT. Mesmo após o surgimento de provas de que Moro não praticava a ética que pregava, seus seguidores estavam sempre prontos a perdoá-lo. Quando ele se aliou a Bolsonaro e assumiu o cargo de ministro, não faltaram desculpas para justificar essa contradição.
Sendo benevolente com aqueles que acreditaram na Lava Jato, é importante considerar que a complexidade e o vocabulário das operações jurídicas, especialmente em um processo que envolvia tantos juízes e procuradores espalhados pelo Brasil, dificultavam o entendimento completo de suas ações. Muitos só começaram a compreender as suspeições e os desdobramentos depois que jornalistas como Joaquim de Carvalho e Paulo Moreira Leite revelaram os escândalos daquela operação. Para a maioria dos leigos, o impacto real só ficou perceptível quando o desmonte da engenharia nacional escancarou o tamanho do estrago.
No caso de Ciro Gomes, porém, os erros estavam à vista de todos. Não havia nenhuma barreira de tecnicalidades jurídicas para mascará-los. Bastava tirar as lentes do antipetismo, ou do lundu petista, e enxergar o que sempre esteve lá: um político narcisista, envolto numa masculinidade tóxica, que atraiu um público majoritariamente masculino, encantado com sua figura de salvador.

O lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Ceará neste sábado apenas transformou em imagem pública aquilo que seus defensores ainda tentavam relativizar. O evento reuniu setores da extrema direita cearense, militantes bolsonaristas e símbolos que, até poucos anos atrás, seriam incompatíveis com qualquer discurso minimamente nacional-desenvolvimentista. A própria postagem do jornal O Povo nas redes sociais registrou a iconoplastia do ato: bandeiras dos Estados Unidos, imagens de Donald Trump, materiais defendendo Flávio Bolsonaro para presidente, referências a Israel e faixas nacionalistas misturadas ao material de campanha de Ciro. Não era um detalhe perdido na multidão. Era parte visível da cena.
A fotografia política produzida ali talvez diga mais sobre Ciro Gomes do que centenas de entrevistas. O homem que passou anos denunciando o bolsonarismo apareceu cercado justamente pelo imaginário visual que ajudou a alimentar a extrema direita brasileira desde 2018. E não adianta fingir surpresa agora. A aproximação já vinha sendo preparada nos bastidores, com setores do PL, do PSDB e da direita cearense tentando construir uma frente anti-PT em torno do seu nome. O palco apenas oficializou o que já estava acontecendo.
Agora mesmo, quando Ciro Gomes abraça publicamente o pastor Alcides Fernandes (PL) como candidato ao Senado e demonstra intimidade política com setores da extrema direita cearense, há um pequeno exército de ciristas pronto para justificar tudo e colocar a culpa no PT. O problema é que, desta vez, não se trata apenas de declarações atravessadas ou rompantes verbais. Há imagens. Há registros. Há uma iconografia política inteira ocupando o entorno do seu palanque. A própria postagem do jornal O Povo nas redes sociais expôs isso sem necessidade de interpretação sofisticada: bandeiras dos Estados Unidos, referências a Donald Trump, materiais de apoio a Flávio Bolsonaro, símbolos ligados à nova direita internacional e uma estética bolsonarista convivendo naturalmente com o lançamento da candidatura de Ciro Gomes ao governo do Ceará.
Ciro construiu sua carreira se apropriando dos méritos de outros, especialmente de seus irmãos, Cid e Ivo Gomes, e da ex-governadora Izolda Cela. Ele se gabava de conquistas que não eram suas, enquanto minava alianças e afastava antigos aliados com seu discurso agressivo. Apesar disso, muitos jornalistas progressistas continuaram aplaudindo sua retórica, alimentando a ilusão de que ele era o “político preparado” para salvar o Brasil da polarização. Vocês já ouviram isso antes. Durante o auge da “ciromania” no Sudeste, qualquer crítica a ele era rapidamente tachada de “lulopetismo”. Mesmo eu, que observava a realidade de perto, no Ceará, era tratada como alguém incapaz de compreender o “gênio” Ciro Gomes.
O fascínio pelo sobralense (Pindamonhangaba, esse b.o. é nosso), só era quebrado quando o fascinado se tornava alvo dele. E olhe lá. Assim Ciro foi colecionando processos na mídia progressista enquanto ela se tornava alvo de seus teleguiados. Eu ia só assistindo com meus olhinhos infantis.
A atração que muitos homens sentem por figuras como Ciro, que apelam para uma virilidade distorcida, ajudou a blindá-lo por muito tempo. Suas falas violentas e antipetistas eram perdoadas como parte de um “temperamento difícil” e justificadas como sinais de uma suposta genialidade. Mas tudo estava ali, visível, para quem quisesse ver. A decepção com Ciro veio tarde para muitos, mas não para quem escutou aquelas que sabiam que seu discurso vazio de moralidade servia apenas para alimentar seu próprio ego.
Repare: Ciro Gomes sempre foi uma metralhadora de falas cheias de números, fórmulas matemáticas e dados lançados numa velocidade surreal, sem que o ouvinte tivesse tempo ou fôlego para checar as informações. Com toda atenção dada desde 2018, poucos perceberam que ele se consolidou como o vencedor de Schrödinger: ao mesmo tempo em que proclama que ganharia no segundo turno, mal consegue pontuar no primeiro. Conforme Ciro Gomes esticava os limites da paciência, da civilidade e da sanidade mental, alguns colegas começaram a fazer concessões discretas aos meus alertas. Eu não esqueço de nada.
O episódio de 2018, quando Ciro foi para Paris durante o segundo turno das eleições presidenciais, recusando-se a apoiar Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro, foi o símbolo mais claro de sua falta de compromisso com a democracia e com o campo progressista para o Sudeste. Não foi só sua ausência que chocou, mas sua volta carregada de rancor e ódio, deixando claro que seu objetivo não era unir a esquerda, mas dividir. Eu repito: o problema não foi ter ido para Paris, foi ter voltado.

Sobre o tal episódio, sejamos francos: Ciro, na verdade, tinha como destino Portugal. Mas o remendo saiu pior do que o rasgo quando ele justificou a viagem afirmando que não era “obrigado a andar com ladrão” e que, se pudesse, embarcaria novamente. Em entrevistas, reforçou que o afastamento naquele momento não se deu por omissão, mas por integridade. Se você leu isso e não pensou “morde aqui pra ver se sai leite”, ou é cirista ou não é cearense.
Enquanto Cid e Ivo Gomes mantinham alianças pragmáticas com o PT e realizavam avanços concretos no Ceará, Ciro optava pelo isolamento, minando sua própria relevância política com uma postura ególatra e beligerante. Suas ações, em vez de fortalecerem o campo progressista, contribuíram para enfraquecê-lo e confundir o cenário político. Por fim, a derrota no berço político e laboratório das políticas públicas dos Ferreira Gomes ilustra a derrocada do cirismo: em Sobral nasceu, em Sobral morreu.
Moro e Ciro têm mais em comum do que muitos gostariam de admitir. Ambos atraíram um público que se acreditava “além” da esquerda e da direita. Ambos vestiram a camisa da moralidade para mascarar seus interesses pessoais e sua busca incessante por poder e atenção. Ambos viraram piada. Sérgio Moro desestabilizou a política com suas ações judiciais. Ciro fez o mesmo com suas palavras, suas sabotagens e, agora, com uma aproximação oportunista com a extrema direita que seus apoiadores juravam impossível.
Eu avisei sobre Ciro, assim como muitos alertaram sobre Moro. No meio disso, há uma percepção paulistocêntrica da política que insiste em ridicularizar e transformar em caricatura qualquer forma de política feita fora de São Paulo, reduzindo o país e suas idiossincrasias a estereótipos simplistas: coronéis no Nordeste, bandoleiros do agro no Centro-Oeste, fascistas do Sul e, quanto ao Norte, o Norte simplesmente não existe. Dessa forma, nossos alertas viram esperneios regionais sem credibilidade.
Esperei por muito tempo uma autocrítica do jornalismo progressista que tanto aplaudiu Ciro. Mas essa mea culpa, assim como ele, também embarcou para Paris.
*Artigo publicado originalmente em 2024 e adaptado.
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