Eu avisei. Antes de virar “nome competitivo” nas conversas de bastidores do PL, antes de virar esperança bolsonarista no Ceará e antes mesmo do flerte público com os herdeiros do autoritarismo, Ciro já dava sinais de que o ego vinha antes da ideologia. Quem só percebeu isso agora ou foi distraído, ou escolheu não ver.
Agora virou moda dizer que ele “mudou”. Mas aqui no Ceará, ninguém está surpreso. O que alguns chamam de reviravolta, por aqui é só mais uma volta no carrossel de vaidades de quem sempre se achou maior que o campo progressista (e do os irmãos). E é preciso cavar muito fundo, bastou o retorno triunfal de André Fernandes aos holofotes depois da surra eleitoral em Fortaleza para deixar isso explícito. O deputado, animado com sua nova temporada no palco cearense, reapareceu distribuindo elogios a figuras que, estão umbilicalmente conectadas, Tasso Jereissati e Ciro Gomes, com aquele ar de quem está testando alianças para o próximo roteiro de 2026.
Não à toa, é justamente nesse contexto que Ciro volta a ser citado com entusiasmo nos círculos bolsonaristas. Em reunião recente em Brasília, Valdemar da Costa Neto, chefão do PL, admitiu que, gostando ou não, é o pedetista quem aparece com mais musculatura para enfrentar o PT no Ceará. E mesmo com resistência de gente como Rogério Marinho, que tenta manter uma certa “pureza doutrinária”, a tendência é que a aliança se viabilize na base do “pragmatismo eleitoral”. No fundo, todos sabem, não existe projeto, existe cálculo.
E quem é melhor em cálculo do que Ciro Gomes? Passou a vida fazendo contas que nunca fechavam, dizia que venceria no segundo turno, mas nunca chegava lá (“Ciro de Schrödinger”). Atacava Lula por supostos acordos espúrios, mas agora tenta entrar na fila para o mesmo tipo de costura com linha podre. A diferença é que antes ele queria ser o protagonista da cena, agora se contenta em ser figurante com fala decorada.
É patético ver os mesmos que gritavam “Ciro é o único preparado!” agora tentando racionalizar sua aproximação com o bolsonarismo como se fosse um erro estratégico, um tropeço. Não é tropeço. É projeto. É sobrevivência política a qualquer custo, mesmo que o custo seja desmontar o pouco de coerência que ainda fingia ter.
O mais simbólico é que, ao tentar ressuscitar sua relevância com apoio da extrema direita, Ciro se transforma justamente naquilo que dizia combater. O político que antes apontava o dedo para os conchavos agora bate na porta dos mesmos que sabotaram a democracia e flertaram com o golpe. E pior, se apresenta como solução, como se o Ceará estivesse carente de salvação e ele, do alto da sua ruína eleitoral, ainda pudesse ser messias de alguma coisa.
Se tiver coragem de aparecer, é claro, porque, como já demonstrou em 2018, valentia mesmo ele só tem na hora de dar show em entrevista. Quando chega a hora da luta concreta, embarca. Seja para Paris, seja para o colo da direita, tanto faz.
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