Segundo análises realizadas pelos cientistas políticos Hilton Fernandes e Jairo Pimentel (veja íntegras abaixo), pesquisadores do Labop FESPSP (Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), sobre a pesquisa Datafolha divulgada neste 11 de setembro, a profusão de denúncias do caso Master envolvendo o STF (Supremo Tribunal Federal) parece ter gerado um efeito de saturação, inibindo mudanças bruscas nas percepções dos eleitores com relação aos candidatos. O eleitorado segue, no entanto, permeável ao noticiário, especialmente se surgirem novos fatos envolvendo, direta ou indiretamente, os candidatos na liderança. Merece destaque, ainda, na avaliação dos cientistas da FESPSP a insistente incapacidade de a comunicação da campanha do PT reverter a desaprovação do governo (50%), mesmo tendo à mão o horário eleitoral de propaganda em rádio e TV.
O Datafolha ouviu 2.002 eleitores entre os dias 8 e 10 de setembro em 125 municípios. O levantamento encomendado pela Folha e pela TV Globo tem registro no Tribunal Superior Eleitoral sob o código BR-01833/2026. Segundo os resultados, Lula lidera o primeiro turno com 39% contra 35% de Flávio Bolsonaro, enquanto o segundo turno segue em empate técnico dentro da margem de erro com 46% para o incumbente e 44% para o candidato do PL.
O grande volume de notícias sobre as denúncias do caso Master, que colocaram o STF (Supremo Tribunal Federal) em crise nesta semana, parece ter gerado um efeito de saturação cognitiva do eleitor, inibindo mudanças bruscas de seu posicionamento na reta final. O eleitorado permanece sensível ao noticiário, especialmente se houver novos fatos envolvendo, direta ou indiretamente, os candidatos, avaliam os cientistas políticos da FESPSP.
"É possível que a falta de efeito das diversas notícias da última semana tenha sido provocada por uma postura mais cautelosa dos eleitores. Criou-se um ambiente confuso, o que inibe um posicionamento mais firme” por parte deles, explica o cientista político e professor Hilton Fernandes.
Para o analista, o cenário atual está longe de ser considerado tranquilo. "O caso Master demonstra ter um grande potencial para gerar novas informações capazes de influenciar as eleições. Com isso, a aproximação do final do primeiro turno parece estar longe de um quadro tranquilo e previsível".
Eleição segue aberta no confronto decisivo
O levantamento do Datafolha indica manutenção da concentração de votos na polarização entre os candidatos do PT e PL, diminuindo o espaço de manobra das campanhas. A agenda pública tem sido dominada por temas de conflito e desgaste, explica Pimentel, o que reduz o espaço para uma comunicação centrada nas realizações do mandato. “Em vez de recuperar sua avaliação, o governo chega à reta final com a percepção negativa ainda elevada e sem sinais claros de melhora consistente”.
Para os analistas, o equilíbrio de forças esconde uma fragilidade de ambos os candidatos, fortemente respaldada pela rejeição idêntica que Lula e Flávio Bolsonaro têm entre os eleitores. Nesse sentido, o Datafolha traz poucas novidades na disputa presidencial, embora reforce alguns movimentos importantes.
Lula e Flávio apresentam o mesmo patamar de rejeição (46%), o que mostra que ambos enfrentam limites semelhantes para ampliar suas bases", avalia Pimentel. Ele ressalta que, embora a distância entre ambos tenha caído de seis para quatro pontos em relação a 21 de agosto, "a eleição segue completamente aberta no confronto decisivo".
O principal sinal de alerta do levantamento recai sobre o comitê de campanha do atual mandatário, opina Fernandes. Historicamente utilizado para reverter índices de rejeição e expor vitórias do governo, o horário de propaganda eleitoral gratuita tem se mostrado ineficaz para o Partido dos Trabalhadores (PT) diante do noticiário negativo para a candidatura de Lula, especialmente aquele turbinado em serviços de mensageria como WhatsApp e Telegram, que carecem de qualquer controle de fake news e desvios de informação.
Como decorrência dessa dinâmica, complementa Pimentel, os dados trazidos pelo último Datafolha não surpreendem: a distância entre a avaliação negativa ("ruim/péssimo", que aumentou para 42%) e a positiva ("ótimo/bom", estacionada em 32%) subiu para dez pontos percentuais. Além disso, a desaprovação pessoal do presidente Lula atingiu a marca de 50%, superando os 47% de aprovação.
"A agenda pública tem sido dominada por temas de conflito e desgaste. Em vez de recuperar sua avaliação, o governo chega à reta final com a percepção negativa ainda elevada e sem sinais claros de melhora consistente", conclui o cientista político da FESPSP, apontando que o ambiente altamente tensionado impediu o Planalto de reverter as entregas do mandato em intenções reais de voto.
VEJA AGORA A ÍNTEGRA DOS ANALISTAS POLÍTICOS DA FESPSP
HILTON FERNANDES
Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP
Apesar de ter sido realizada após o início da crise no STF que envolveu Alexandre de Moraes, a pesquisa Datafolha deste dia 11 de setembro não captou variações no humor dos eleitores, apresentando movimentações apenas na margem de erro para os principais resultados. Consolida-se, assim, o empate técnico entre Lula e Flávio no segundo turno (46% a 44%) e uma pequena vantagem do atual presidente no primeiro turno, com 39% (oscilação de um ponto para cima) contra 35% de Flávio (oscilação de dois pontos para cima). A avaliação negativa do governo persiste, o que indica que a campanha petista não teve sucesso em aproveitar o período de propaganda eleitoral para recuperar a imagem do presidente Lula.
É possível que a falta de efeito das diversas notícias da última semana tenha sido provocada por uma postura mais cautelosa dos eleitores, que se veem confrontados com uma avalanche de novas informações que envolvem nomes importantes do cenário político. A divulgação das conversas de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes, ao mesmo tempo em que surgem novas denúncias contra Flávio Bolsonaro, cria um ambiente confuso após tantas acusações sobre qual “lado da polarização” está certo ou errado, o que inibe um posicionamento mais firme por parte dos eleitores.
Apesar da estabilidade das pesquisas, o caso Master demonstra ter um grande potencial para gerar novas informações capazes de influenciar as eleições. Com isso, a aproximação do final do primeiro turno parece estar longe de um quadro tranquilo e previsível.
JAIRO PIMENTEL
Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP
O Datafolha traz poucas novidades na disputa presidencial, mas reforça alguns movimentos importantes. Em uma semana marcada por uma agenda política fortemente negativa — com destaque para os embates em torno do STF e para o caso Master —, a eleição segue cada vez mais concentrada em Lula e Flávio Bolsonaro, com pouco espaço para uma terceira candidatura competitiva.
No primeiro turno, Lula aparece com 39% e Flávio, com 35%. Em 21 de agosto, a diferença entre os dois era de seis pontos (39% a 33%) e, agora, caiu para quatro. Augusto Cury, que vinha aparecendo como a principal alternativa aos dois polos, registra 6%, o que reforça a dificuldade de consolidação de uma terceira via nesta reta final. O movimento geral, portanto, é de maior concentração da disputa nos dois candidatos que já polarizam o eleitorado.
No segundo turno, o cenário permanece praticamente congelado: Lula tem 46% e Flávio, 44%, exatamente o mesmo resultado da rodada anterior. Apesar da vantagem numérica de Lula no primeiro turno, a eleição segue completamente aberta no confronto decisivo. A diferença entre os dois é pequena e permanece dentro de um quadro de forte equilíbrio.
A rejeição ajuda a explicar esse cenário. Lula e Flávio apresentam o mesmo patamar de rejeição (46%), o que mostra que ambos enfrentam limites semelhantes para ampliar suas bases. Isso reforça uma característica central da disputa: nenhum dos dois consegue transformar sua vantagem em preferência eleitoral em uma posição confortável, porque ambos carregam níveis elevados de voto negativo.
Também merece atenção a evolução da avaliação do governo Lula. Em maio e junho, o Datafolha registrava 38% de "ruim/péssimo" e 32% de "ótimo/bom". Em agosto, a avaliação negativa passou para 41% e, em setembro, chegou a 42%, enquanto a positiva permanece praticamente estável, hoje em 32%. A distância entre a avaliação negativa e a positiva, portanto, aumentou de seis para dez pontos.
Na aprovação pessoal, ocorre um movimento semelhante: depois de um cenário mais equilibrado nos meses anteriores, a desaprovação passa a predominar e hoje está em 50%, contra 47% de aprovação. Esse movimento é especialmente relevante porque o período de campanha costuma oferecer ao incumbente uma oportunidade de reorganizar sua imagem, comunicar realizações e transformar entregas de governo em percepção positiva.
Até aqui, porém, a campanha de Lula não parece estar conseguindo produzir esse efeito. A agenda pública tem sido dominada por temas de conflito e desgaste, o que reduz o espaço para uma comunicação centrada nas realizações do mandato. Em vez de recuperar sua avaliação, o governo chega à reta final com a percepção negativa ainda elevada e sem sinais claros de melhora consistente.
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