Segundo a obra clássica de Jacob Gorender, "O Escravismo Colonial", a escravidão no Brasil definiu, com Modo de Produção genuinamente ibérico, uma tipologia de cativos. Os mais presentes eram os escravos de "eito" (meio rural), os "urbanos", de "ganho", de "aluguel" e "domésticos". Estes últimos se caracterizavam pelos serviços de casa. Foram os embriões das empregadas domésticas, assim como a "dependência de empregada" é herança da Casa Grande.
Eram os mais submissos, críticos aos rebeldes e fujões, e defensores de seus senhores. Serviam a família com lidas da casa e até sexual. Produziam "herdeiros" da vassalagem com suas crias bastardas originadas pela subserviência sexual e estupro.
Os chamados "negros da casa" eram vistos "como quase da família", pois viviam no conforto da Casa Grande, embora dormissem no cubículo próximo à cozinha. Não se entendiam parte de uma casta escravizada, e eram, não raro, delatores dos focos de resistência.
É bem verdade que tal postura e atitude se explicavam pela autoproteção diante da convicção de impotência. Eram dignos de elogios e não recebiam maus tratos - desde que fossem efetivamente subservientes, leais e não questionassem a privação de liberdade.
Hélio Negão, o "negro da casa bolsonarista", cumpre o papel de doméstico. Não é capitão do mato, como alguns desavisados o definem. Outros o são, é verdade, mas Hélio é o "quase da família". É o leal cumpridor das tarefas mais constrangedoras.
Assim como os escravos domésticos de outrora ganhavam roupas elegantes para irem à missa junto de seus senhores, Hélio Negão usa ternos e tira foto ao lado do seu Senhor.
Bolsonaro suja para que Hélio limpe. Bagunça para que Hélio arrume. Chama-o para fotos como forma de legitimação de posse. Tudo nos moldes que a nossa história registrou. E Hélio cumpre com a destreza que Jacob Gorender descreveu.
Adriano Viaro
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