Vamos começar estabelecendo um conceito importantíssimo para este debate: o chamado “movimento identitário” remonta ao século 20, no período pós-Segunda Guerra Mundial e em NADA tem a ver com as lutas de movimentos sociais por mais protagonismo de pessoas pretas, indígenas, mulheres, LGBTQIAPN+, entre outros.
Pelo contrário: em sua origem este movimento é de EXTREMA DIREITA e luta por afirmação do direito de povos de suposta origem europeia sobre culturas e territórios reivindicados como pertencendo exclusivamente a eles.
Ou seja: um movimento eivado de xenofobia, racialismo e outros preconceitos. Portanto, o uso deste termo para classificar e “encaixotar junto” as diversas lutas do campo progressista pode ser inclusive uma escolha deliberada em algumas situações, para subverter o seu real significado e confundir todo o debate.
Estabelecido o conceito, vamos à polêmica: Lula fez um discurso contra os “identitários” no ato de filiação de Marta Suplicy
Não!
Assumindo esse conceito tacanhamente subvertido que alguns supostos progressistas usam – e outros vão atrás sem entender o que estão fazendo – o que Lula fez foi criticar candidaturas sem representatividade popular, e não por sua identidade de gênero ou etnia.
Não basta ser mulher para preencher cota de gênero do partido, tem que ser mulher e liderança engajada em movimentos sociais. O mesmo vale para os demais exemplos citados por ele (negros, indígenas, brancos, etc). Ser de determinado recorte social não é “carteirada” para garantia de candidatura, o trabalho e atuação militante precisam falar pela pessoa.
A grande imprensa e veículos de direita aproveitam momentos como esse para atacar o governo ou expor supostas contradições no nosso campo – isso sempre foi assim e não vai mudar. Militantes ressentidos, alguns sem espaço no governo e sempre prontos a alfinetar e cuspir bile, fazem o mesmo e contaminam mais ainda o debate público.
A confusão fica no colo dos espectadores que assistem a isso e, em tempos de redes sociais desreguladas que nos forçam ao conflito, são empurrados a tomar posição e “entrar na briga” por um dos lados.
O que me decepciona, mas não me surpreende, é constatar que essa militância ressentida é a mesma que vive ditando regras de como devemos nos portar nas redes sociais para não gerarmos engajamento a adversários políticos. Agora tá lá, dando palco para o discurso reacionário e arrastando Lula para esse mar de chorume em nome do seu amargor.
Lula é um senhor de outro século, formado em outra escola política e de verve solta. É óbvio que esse contexto precisa ser levado em conta para interpretar suas falas. Mas mais do que isso, seu trabalho e seu governo falam por ele e contradizem essas interpretações tacanhas de seu discurso.
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