O debate sobre a exploração de petróleo na margem equatorial escancarou um incômodo que há muito se sussurra, mas raramente se assume com todas as letras, o colonialismo da mídia progressista. De repente, o Norte do Brasil virou campo de batalha ideológica, mas continua sem voz. Os nortistas são falados, interpretados, defendidos ou atacados, mas quase nunca ouvidos. Nem mesmo quando falam alto.
Dos dois lados da trincheira, o vício é o mesmo, falar pelos outros. De um lado, os que se opõem à exploração, em nome de um ecologismo que ainda trata a Amazônia como o último relicário intocado do planeta. Imaginam a região como um grande templo natural, povoado por gente inocente, incapaz de discernir os efeitos e as contradições do que se chama “desenvolvimento”. Nessa narrativa, os nortistas só cabem como coadjuvantes protegidos, ou como obstáculos a serem educados.
Do outro, os que defendem a exploração como se ela fosse uma panaceia para todos os males da região. Ignoram o impacto socioambiental, a complexidade geográfica e os modos de vida que não cabem em planilhas de custo-benefício. Vendem a exploração da margem equatorial como se fosse um "pré-sal da floresta", sem discutir as experiências acumuladas por décadas em projetos amazônicos, das usinas às hidrovias, da Zona Franca de Manaus aos polos de extração que sempre concentraram riquezas e dispersaram destruição.
Enquanto isso, os próprios projetos locais de desenvolvimento, com tecnologias sociais adaptadas ao bioma, com protagonismo indígena e comunitário, seguem invisibilizados. São tratados como folclore de ONG ou curiosidade etnográfica. Mas eles existem, e são muitos. A inovação na Amazônia não é futurismo verde de laboratório europeu. É ancestralidade tecnológica, feita de saberes que não se dobram à lógica colonial do extrativismo de curto prazo.
No meio desse impasse, Marina Silva foi atacada de forma brutal, e, ironicamente, isso a blindou. Pela primeira vez, parte da esquerda pareceu compreender o que ela vem enfrentando desde que voltou ao Ministério do Meio Ambiente, uma guerra assimétrica. Mas agora, ao que tudo indica, somos todos Marina. Não, não somos. Porque quando ela resistia sozinha à liberação de licenças, uma parte da esquerda preferia culpá-la pelo atraso. Quando ela dizia que a exploração sem planejamento era um risco irreversível, diziam que ela estava travando o país.
Marina nunca foi unanimidade, nem deveria ser. Mas não é possível fingir que sua trajetória não é marcada por uma coerência rara. Quando a mídia progressista cobrava celeridade, ela pedia estudos. Quando o governo recuava diante das pressões, ela segurava o que podia. A mesma mulher negra, amazônida e ex-seringueira que a esquerda tantas vezes idolatra em discurso é aquela que, na prática, foi empurrada para o isolamento institucional. Só agora, depois do ataque, se permite uma comoção seletiva. Mas Marina nunca precisou de piedade. Precisava, e ainda precisa, de escuta.
Nordestinos também fomos vítimas desse mesmo silenciamento. Ainda somos caricaturados como atraso, como peso morto da federação ou como reduto folclórico. Mas entramos na trincheira da comunicação. Fizemos das rádios comunitárias, das redes sociais e das redações trincheiras de voz e presença. Hoje, estamos aqui, e não para repetir o erro de falar pelos outros. Se servirmos de alguma coisa, é para oferecer a mão aos amigos nortistas, não como quem guia, mas como quem caminha junto. Porque só quem já foi reduzido a estereótipo entende a urgência de se fazer ouvir por inteiro.
A margem equatorial talvez seja a última fronteira entre a soberania e a repetição. O que está em jogo não é apenas liberar ou não liberar a exploração. É decidir quem tem o direito de decidir. Os nortistas sabem falar. Sabem negociar. Sabem calcular riscos. E sabem muito bem que desenvolvimento não é uma fórmula pronta trazida de Brasília ou de Oslo. É projeto de futuro, com o pé no chão e ouvido nas margens.
O resto é ruído colonizador, mesmo quando vem travestido de boa intenção.
Comentários: