Compromisso com a informação

Quinta-feira, 07 de Maio de 2026

Notícias/Política

O coachismo e os bebês reborns: idiotização pelo lúdico. Por Prof. Viaro

Um problema atualíssimo

O coachismo e os bebês reborns: idiotização pelo lúdico. Por Prof. Viaro
Foto: Reprodução/UOL/Divulgação
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Publicado originalmente no X/Twitter.

O Bebê Reborn não é apenas mais uma coqueluche da pós-modernidade, mas sim fruto do coachismo. Uma sociedade invadida pelas “terapias breves” busca repostas prontas para situações complexas, ou melhor, vende a ideia de que existem métodos – ou códigos – capazes de solucionar os problemas mais encardidos da nossa própria existência. O furo está justamente no fato de que para existirem “passos pré-prontos” para a felicidade ou sucesso, é preciso que a diversidade humana seja abolida. Somente com uma sociedade robotizada, ou dividida pelas castas de Huxley, tornar-se-á possível a implantação de regras únicas para humanos plurais (perdão pelo pleonasmo).

O Bebê Reborn é a emulação do ser humano 2.0, ou melhor, do “coachee ideal”. Trazer isso tudo como forma de bebê não é uma mera caricatura de um jogo de fetiches. E também me perdoem os que irão sempre analisar por vieses únicos. O bebê é o símbolo do cuidado, ou daquele que deve ser cuidado. É também o símbolo do que o apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 3:2, chamou de alimento para os imaturos (presente também na etimologia da palavra ‘aluno’), ou seja, a emulação se faz ferramenta para alienação daqueles que estão, por suas vezes, implorando para serem alienados.

O master-coach Pablo Marçal saiu em defesa dos bebês reborns, porém com discurso enviesado. Para ele, os bebês de látex cumprirão a função de impedir que pessoas desqualificadas tenham bebês reais. Ou seja, um discurso tomado por eugenia, higienização e fascismo. Porém, Pablo ignora os recortes espaciais e de classe presentes na prioridade de aquisição de tais bonecos. Ou talvez queira ignorar.

A pós-modernidade, inúmeras vezes negada pelo academicismo careta e ortodoxo, começa a movimentar as melancias na caçamba: pastores e profetas mirins, coaches de toda ordem, bebês reborns, invasão das bets, além da ‘reformulação ludopédica’ a partir da mistura do futebol com Igreja da Parede Preta, cassino e jogo de tabuleiro definem formatos e regras para uma emenda tácita ao que conhecemos por contrato social.

Para não dizer que não falei das flores, a morte da ideia é o sintoma máximo do emburrecimento visto diariamente e embalado para consumo sem rótulo ou alertas. A sociedade sucumbe ao caricato que não é caricato. Ela assiste bestializada para além do que José Murilo de Carvalho definiu. Os Bebês Reborns jogam com a infantilização dos “imaturos de quarenta anos ou mais” que decidiram permanecer na casa dos pais, e que agora criaram um upgrade para o “brincar de boneca”. Nem Huxley previu isso.

Adriano Viaro, autor do livro O Anticoach, da Emó Editora.

Comentários:

Veja também

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!