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Terça-feira, 21 de Abril de 2026

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O inferno da alienação parental e de homens que perseguem e agridem mulheres: dois relatos à Folha Democrata

Reportagem da FD

O inferno da alienação parental e de homens que perseguem e agridem mulheres: dois relatos à Folha Democrata
Foto: Wikimedia Commons
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Por Pedro Zambarda, editor da Folha Democrata.

A Folha Democrata recebeu, desde julho de 2023, diferentes denúncias de acusações de abusos e de possíveis crimes de homens, um deles pai, contra mulheres. Os relatos e os detalhes dos processos mostram como a desigualdade social e a misoginia permitem que as violações prossigam - mesmo com a Justiça envolvida.

Acusação de abuso psicológico e físico

Ana* sofreu múltiplos abusos físicos de um parceiro com quem ela estava junto desde final de 2022. A última agressão foi em abril deste ano. Ela registrou Boletim de Ocorrência. Um celular, segundo a vítima, foi furtado.

Os dois estavam em um forró com consumo de álcool e de substâncias ilícitas. Ele conhecia mulheres em um grupo de “não-monogâmicos”. 

A violência do agressor não era física em um primeiro momento. Ele mantinha relacionamentos fixos e se dizia “liberal” para viver outras relações. E as mulheres brigavam entre si pela atenção do abusador. As agressões envolvendo Ana ocorreram desde janeiro de 2023.

Haviam “ameaças veladas” em torno dos relatos dele em uma relação supostamente poligâmica. Ele mesmo falava em “golpe do amor” com as vítimas.

O homem acusado de agressão, Wellington Bertarello, é conhecido pelo apelido “Gatilho Verbal” e atua como rapper na região de Itu, no interior de São Paulo. A Folha Democrata recebeu o BO de Ana e mais um processo por agressão que dão embasamento a esse relato de ataques psicológicos e físicos.

Ligado à religião evangélica, Bertarello parecia para a vítima querer sair de processos e de acusações de crimes na Justiça.

Após sair um mês com a vítima no começo do relacionamento, apresentou sua família em Itu. No entanto, já colocou na conversa que uma ex-namorada não tinha gostado do relacionamento dele com Ana.

Ainda no final de 2022, o comportamento de Betarello mudou completamente com Ana. Em uma viagem, contou a ela que era usuário de drogas e era envolvido com ilícitos. Ele não demorou para revelar a sua verdadeira personalidade, que ia além de relações poligâmicas. O rapper começou a monitorar a vida dela e seus relacionamentos, buscando apoio financeiro. Acompanhava e buscava saber a movimentação financeira de Ana, em um comportamento narcisista. Pedia centenas de reais em pix.

Para pagar tatuagem, festas e diversão.

Em abril de 2023, a vítima acusa Wellington Bertarello de tê-la estuprado, agredido e furtado o smartphone. A acusação de roubo de celular, um modelo Samsung, foi registrada em BO que a Folha Democrata teve acesso.

Antes desse caso, ela diz que enfrentou uma tentativa de homicídio. A agressão do homem supostamente poligâmico fez tudo voltar.

Ana convive com ataques de pânico, faz tratamento psicológico e chegou a ser abordada pelo agressor pelo WhatsApp. Orientada por especialistas, bloqueou e evita qualquer tipo de contato com ele.

Gatilho Verbal e o BO aberto em Itu

Acusação de alienação parental e abuso econômico

O caso de Joana* já foi parar nos tribunais e a decisão, que ainda cabe recurso, foi desfavorável para ela. Mulher preta, sentiu na pele como o preconceito a separou de sua filha. Acusa o pai da criança de envolvimento em um episódio de agressão.

Os dois se conheceram em um camarote de uma balada na noite de São Paulo. O envolvimento foi rápido: uma noite e ela engravidou.

“Foi um erro ter conhecido ele naquele lugar e naquele momento. Foi tudo um erro”, lamenta ela.

A noite não deixou nenhuma recordação na memória de Joana. Ela foi encontrada desacordada pela mãe no dia seguinte. Passou mal. Pelo relato de parentes, a vítima acredita que foi dopada pelo homem que acusa de crimes, com possível abuso físico.

Joana narra que Rodrigo Gomes teve embates desrespeitosos com sua mãe e que pediu para ela abortar a criança ou fazer um teste de DNA. Também se afirmava que a filha não era dele, sendo bem tratada pela avó. A discussão ocorreu em uma residência na Zona Sul de São Paulo. Ela tinha cinco meses de gravidez.

A vítima nunca teve coragem para denunciar porque Rodrigo Gomes “se vangloria” de ter parentes com cargos públicos e na polícia, como se tivesse “costas quentes”. 

Um tom de ameaça nas falas dele marcou o relacionamento durante toda a gravidez da menina menor de idade envolvida nos processos, segundo Joana. 

Uma das ex-mulheres de Gomes relatou um tom ameaçador semelhante em seu processo de divórcio, além da própria Joana. Quando ela escutou o desabafo dela, não acreditou muito.

Mas o pesadelo se tornou realidade. 

Joana acusa Gomes de agressões físicas contra a filha. Acusa-o de alienação parental, quando um pai tenta afastá-la da própria mãe. De acordo com ela, os possíveis delitos ocorrem pela exploração econômica em torno das relações familiares.

A filha não quer deixar de ver o pai, mas, de acordo com declarações dela à reportagem, ele se aproveita de uma situação econômica mais segura para afastá-la da convivência materna.

Em 2019, morando em um bairro de baixa renda na Zona Sul de São Paulo, Joana acusa um vizinho de abusar e de agredir seus filhos menores de idade. O episódio aconteceu na presença de sua mãe, a avó das crianças. 

Esse caso foi registrado em Boletim de Ocorrência. Mesmo com problemas psicológicos envolvendo as crianças, Rodrigo Gomes entrou com processo cível na 2ª Vara da Família e Sucessões em maio daquele mesmo ano requerendo a guarda da criança.

Sem dinheiro para advogados e dependendo da Defensoria Pública, Joana entrou em acordo judicial em abril de 2023. Mulher negra e de baixa renda, ela segue denunciando abusos de Gomes no pagamento de pensão e no tratamento da própria filha.

Rodrigo Gomes. Foto: Reprodução

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Os dois casos não são uma novidade nos diferentes tribunais da família espalhados pelo Brasil. Muitas vezes não se tornam notícia, especialmente quando não envolvem pessoas brancas ou privilegiadas economicamente.

Optamos por divulgá-los para alertar as autoridades, os governos e outros colegas jornalistas. A defesa do feminismo, do Direito para todos e de uma sociedade melhor não deve ser apenas entre celebridades ou nomes da elite política e econômica.

Outro lado

A Folha Democrata procurou por telefone os homens citados nesta reportagem. Até o momento da publicação da reportagem, não obtivemos resposta. O espaço está aberto.

*Os nomes das vítimas procuradas pela reportagem da Folha Democrata foram trocados para preservar a sua privacidade nas denúncias.

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