Institutos falharam ao calibrar modelos de eleitor provável (likely voter) e subestimaram onda de mobilização que garantiu virada histórica de Lula, dizem pesquisadores do Labop FESPSP
O erro generalizado das pesquisas eleitorais no segundo turno do pleito presidencial de 2026 decorreu de uma mudança drástica nos padrões de comparecimento do eleitor às urnas que não foi captada pelos institutos. Isso aconteceu, provavelmente, por causa de falhas na calibragem dos modelos estatísticos de likely voter (perfil do eleitor provável de comparecer às urnas) dessas pesquisas, opinam os analistas políticos Beto Vasques, Hilton Fernandes e Jairo Pimentel, pesquisadores do Labop FESPSP (Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
Contrariando os principais institutos, que apontaram empate técnico com favoritismo de Flávio Bolsonaro até a véspera do pleito, as urnas consolidaram a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva com 52% dos votos válidos contra 48% de seu adversário. A virada inédita — cujas chances iniciais eram estimadas em apenas 19% — foi motivada por um erro de cálculo metodológico que subestimou o peso do engajamento emocional do eleitorado na reta final das campanhas, conforme o modelo probabilístico desenvolvido pelo pesquisador Jairo Pimentel.
Segundo ele, um dos principais fatores que evidenciam esse erro nas pesquisas foi a inversão histórica da abstenção. Tradicionalmente, o segundo turno no Brasil registra uma queda de cerca de 2% no comparecimento em relação ao primeiro turno. Em 2026, esse cenário se inverteu com um aumento de quase 2% na presença dos eleitores, gerando um fluxo de 4,8 milhões de votos novos vindos de antigos abstencionistas e da redução de brancos e nulos, conforme o cientista político.
Voto oculto por rejeição ou medo
Dados de pesquisa do Labop encampados por Pimentel revelam que 54% dos eleitores independentes que votaram em Lula o fizeram estritamente por oposição, para evitar a vitória de Flávio Bolsonaro. Esse voto oculto por rejeição e medo acabou não sendo detectado pelos questionários tradicionais de intenção de voto.
Isso mostra, segundo o pesquisador, que os institutos erraram ao projetar que os eleitores de Flávio Bolsonaro teriam maior propensão de ir votar em seus modelos de likely voter, que medem estatisticamente a chance de o eleitor depositar seu voto nas urnas segundo seu perfil político.
Enquanto os eleitores de Flávio eram guiados principalmente pelo pragmatismo, os de Lula eram movidos pela motivação — seja ela positiva, por identidade com o candidato, seja negativa, por medo da volta da família Bolsonaro ao poder. Esse é um indicativo que favoreceu o comparecimento, explica o analista político Beto Vasques, coordenador do Labop.
"O eleitor independente progressista pró-Lula votou por oposição, votou por medo ou por entusiasmo, embalado pela mobilização nas ruas e nas redes. Tudo que é emoção costuma ser muito mais forte que a razão. Então, um voto por medo ou empolgação é muito mais poderoso que um voto por razão pragmática. Fora isso, Flávio não foi capaz de entusiasmar nem os votantes mais fiéis ao seu pai, fazendo uma campanha arrogante e, ao mesmo tempo, defensiva, esperando que as eleições acabassem o quanto antes”, explica Vasques.
Pesquisas excessivamente calibradas
O cientista político Hilton Fernandes credita o erro dos modelos estatísticos aplicados no segundo turno também ao fato de terem se baseado na fotografia do primeiro turno, quando os institutos também não conseguiram captar o tamanho real das intentions de voto dos candidatos. O resultado, em sua análise, foram pesquisas de segundo turno excessivamente calibradas para corrigir os erros passados, o que acabou nublando a captação do comportamento dos eleitores independentes na véspera do pleito.
Os modelos não foram capazes de captar também o impacto do último debate presidencial, ocorrido na sexta-feira que antecedeu o segundo turno, o qual foi determinante para a mudança de humor do eleitorado, na visão dos pesquisadores do Labop.
A quebra de postura e as declarações polêmicas de Flávio Bolsonaro, lembra Vasques, acionaram um alerta no eleitorado indeciso e no eleitorado cativo de Lula que havia se distanciado do presidente, provocando uma onda de mobilização de última hora liderada por jovens e idosos, sobretudo mulheres, que reverteu o cenário sociopolítico em menos de 24 horas. O fenômeno ficou evidente no Nordeste, onde Lula expandiu sua liderança. Para consultar os dados oficiais detalhados e as porcentagens exatas de votos por região, acesse os recursos oficiais do Tribunal Superior Eleitoral.
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