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Terça-feira, 21 de Abril de 2026

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Piketty explica que a desigualdade já foi menor em guerras mundiais e que o trabalho foi desvalorizado no neoliberalismo

Considerações sobre o livro "A Economia da Desigualdade" (1997). Por Pedro Zambarda

Piketty explica que a desigualdade já foi menor em guerras mundiais e que o trabalho foi desvalorizado no neoliberalismo
Foto: AFP
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Entrevistei o economista francês Thomas Piketty em 2014, pouco antes da reeleição de Dilma Rousseff. Ele fez uma palestra na USP e selecionou alguns veículos de comunicação para conversar num hotel perto da Avenida Paulista. Lembro que a entrevista em torno do livro "O Capital do Século 21" foi muito produtiva.

No entanto, as melhores aspas que Piketty me forneceu naquela conversa aconteceram no exato momento que eu desliguei o gravador. Ele defendeu o voto dos mais pobres em Dilma pelos impactos profundos do programa Bolsa Família. Os jornais e cadernos de economia não ressaltavam qual era a real conexão dele com a esquerda. E acredito que a minha conversa mostrou a convergência das ideias dele com as ideias do PT.

Saindo do badalado "Capital", a editora Intrinseca disponibilizou outras obras dele. "A Economia da Desigualdade" é um bom livro de entrada se você quiser entender qual é a visão dele sobre o desenvolvimento da economia no século 20 e as suas características no nosso tempo. Não é tão profundo, mas é um estudo detalhado sobre salários e o valor do trabalho de 1930, até os anos 80 e 90 e o panorama dos anos 2000.

Ele traça esses estudos e modelos de cálculo tanto na França quanto em outros países europeus e nos Estados Unidos.

Piketty não é revolucionário. Piketty não é meramente um reformista. Mas ele recupera, de Marx e de David Ricardo, a análise da curva da desigualdade. E defende, de maneira clara, a necessidade da taxação dos mais ricos em torno de uma regularização econômica.

Em seus estudos, aponta que as guerras mundiais criaram demandas de trabalho que reduziram as desigualdades. E que o modelo antiestatista da década de 1980 provocou a desvalorização e a precarização do trabalho - embora ele não avance na questão da uberização. O livro é de 97, mas sofreu atualizações suficientes para ser uma boa leitura para mim num domingo durante uma caminhada na praça.

Sobre redistribuições eficientes, ele escreve na página 127 - o livro tem 147, o que torna uma leitura ainda mais rápida com os gráficos:

Em diversas situações, a desigualdade exige uma ação coletiva de redistribuição não só por ir contra o nosso senso de justiça social, como por representar um imenso desperdício de recursos humanos que poderiam ser mais bem utilizados em benefício de todos. O exemplo típico é o da discriminação ou do poder de monopsônio sobre o mercado de trabalho: além de ser um tanto humilhante, seria ineficaz oferecer tão somente uma trasnferência fiscal compensadora aos que forem injustamente discriminados ou explorados pelo empregador. Essas desigualdades necessitam de instrumentos de redistribuição que permitam corrigir tais ineficácias e ao mesmo tempo redistribuir a renda, como as ações afirmativas, um salário mínimo ou, mais genericamente, intervenções diretas sobre o mercado de trabalho. As políticasde educação e formação, sob diversas formas, também podem constituir um instrumento poderoso de redistribuição eficiente, permitindo modificar estruturalmente a desigualdade das rendas do trabalho.

O trabalho faz uma análise fria e objetiva sobre as causas da desigualdade, propondo instrumentos de controle do Estado para mudar o panorama de formação e desenvolvimento do emprego.

Mesmo sugerindo um diagnóstico claro, Piketty enxerga que o salário sofreu uma deterioração. E que há uma formação política dos governos que ainda não implantam esses mecanismos de controle.

Vou ler os demais livros de Thomas Piketty e trazer mais impressões aqui.

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