Josué Souza discute o aumento das mortes de crianças e adolescentes em ações policiais e aponta como a literatura pode ajudar a preservar a memória de vidas interrompidas
Às vezes, penso que uma criança é, antes de tudo, uma promessa. A promessa de um corpo que ainda vai crescer, de uma voz que ainda vai mudar, de perguntas que ainda serão feitas. Uma promessa para mães, pais, famílias e para o mundo, que ainda está por acontecer. Talvez por isso seja tão difícil aceitar quando uma infância termina antes da hora.
Há números que deveriam nos impedir de seguir o dia normalmente. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Unicef mostrou que, em 2025, o Brasil registrou 2.079 mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes de até 17 anos. Desse total, 428 ocorreram em decorrência de intervenções policiais. Entre adolescentes de 12 a 17 anos, essas mortes representam 23,1% das mortes violentas intencionais.
Leio esses números e tento imaginar o que existe depois deles. Porque 428 não são apenas 428. Por trás de cada número, existe uma infância interrompida, uma família que precisou aprender a conviver com a ausência, uma história que deixou de avançar. São fotografias que serão guardadas, quartos que continuarão arrumados, brinquedos que ninguém mais saberá se deve guardar. São famílias esperando ouvir uma chave na porta, mesmo sabendo que ninguém mais vai entrar.
E há outra coisa que os números dizem, talvez em silêncio: a cor dessas infâncias. A maioria das crianças e adolescentes mortos violentamente no país é negra. Há algo profundamente errado quando nascer negro e viver na periferia ainda significa estar mais perto de uma morte que poderia ser evitada. A infância negra continua exposta a riscos que deveriam nos provocar indignação coletiva.
Foi pensando em algumas dessas ausências que escrevi Elefante. A história de Gugu e POC nasceu, também, da memória de infâncias interrompidas. Não escrevi para explicar a violência — nem poderia, nem deveria —, tampouco para transformar a dor em vitrine. Escrevi porque algumas histórias continuam pedindo para serem lembradas. E porque, pela literatura, podemos perguntar: o que fazemos com aquilo que não conseguimos aceitar?
A literatura não consegue impedir uma bala perdida, nem pode devolver uma criança a uma família, tampouco consertar aquilo que já foi quebrado. Mas pode se recusar a esquecer.
Quando uma criança morre, não perdemos somente aquilo que ela era. Perdemos também tudo aquilo que ela ainda poderia ter sido. Nenhuma sociedade deveria se acostumar com isso. Por isso, diante desses números, talvez a pergunta não seja apenas quantas crianças estamos perdendo. Talvez seja outra, mais incômoda: qual infância estamos protegendo?
Como Gugu, eu sonho. Sonho que toda criança possa fazer aquilo que parece tão simples: crescer. Mas sei que, para tantas, isso é um privilégio. Meu sonho é que chegue o dia em que falar de infâncias interrompidas seja apenas para escrever histórias, ficar nos contos e na imaginação... e não mais na realidade.
*Josué Souza é acadêmico de Letras Português/Inglês na Universidade de São Paulo (USP). É autor de Elefante, obra que explora temas como luto, memória, infância, imaginação, diversidade, amor, perda e permanência.
Instagram: @jsescrittor
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