Do site Passando a Limpo.
Olá, pessoal! Tudo bem?
É sob um frio de 13 graus que te entrego esta cartinha, com as mãos geladas de digitar e com péssimas notícias para nós, donos e proprietários do bom senso eleitoral: parece que vai se criando um clima terrível para que o projeto de golpista consolide a candidatura de um dos seus filhos ao senado por Santa Catarina.
Sim, estou falando de um dos assuntos mais buscados no Google nos últimos dias: a possível mudança de domicílio eleitoral do vereador Carlos Bolsonaro para o sul do Brasil, mas especificamente para cá, de onde escrevo.
O filho do ex-presidente, a quem a Internet chama carinhosamente de Carluxo, deve vir ao Estado nesta sexta (mais conhecido como hoje, para vocês, e como amanhã, para mim, que preparo essa carta às quintas). A agenda prevê participação em um evento político partidário e, claro, um primeiro tete-a-tete com o eleitor local. Medir a febre, sabe como é?
Sem mais delongas, começaremos…vem de barra de rolagem e coloca um casaquinho para não gripar (vacine-se também!)
1 - Vi no jornal
Montaram num porco - Eu não sei se essa expressão é gaúcha ou catarina, mas o fato é que deu para ver a indignação do poder econômico catarinense com a possibilidade de Carlos Bolsonaro ser candidato ao senado pelo Estado no segundo editorial do Notícias do Dia sobre o assunto, dessa vez com a assinatura de Marcello Corrêa Petrelli, que carimba o texto como “Cidadão e presidente do Grupo ND".
Figura conhecida na cena local, Petrelli é um empresário de mídia bem relacionado na política e um poderoso “publisher”, já que dirige um portal, uma emissora de TV, rádio e um dos únicos jornais impressos do Estado.
Já é o segundo desagravo do ND, afiliada do grupo Record, com a ideia fixa de Bolsonaro de territoralizar Santa Catarina. As palavras são um misto de fúria com gentileza, com ideias absurdas como a de construir uma “identidade” para um estado cada vez mais construído por migrantes. Eu discordo de tudo que está no texto, exceto com a rejeição a figura de Carlos Bolsonaro e de Jorge Seif, chutado e humilhado pelo pulisher.
Mas, diferentemente de Petrelli, eu não acho apenas que o filhote de projeto de golpista não deva ser candidato por um Estado com o qual não tem vínculo. Eu acho mesmo é que ele não deve ser candidato a nada, por lugar algum, já que em 25 anos de vereança no Rio de Janeiro pouco apresentou e só fez aumentar o próprio patrimônio, como eu mesma contei aqui.
Tensão pré-eleitoral - A tensão pré-eleitoral provocada pelo movimento de Bolsonaro em direção ao seu núcleo íntimo e completamente desconectado da política local ganhou o Brasil. E coube ao deputado Jorge Goetten, que recentemente se desfiliou do PL e foi para o Republicanos para engrossar o apoio ao governador no Estado, ser o mensageiro do caos.
Goetten sugeriu que já havia uma possível aliança entre o senador Esperidião Amin (Progressistas) e o governador Jorginho Mello e que, se Carlos Bolsonaro for mesmo candidato, a deputada Caroline de Toni (PL) seria limada da disputa.
Isso abriu muitas ranhuras internas no bolsonarismo local. Expôs que Jorginho Mello pode estar por trás do fogo amigo, já que Goetten é próximo a ele. Deixou Caroline de Toni sob ameaça de perder a chance de disputar o Senado. Alertou o eleitor catarinense que a interferência externa pode vender o ouro do PL local a troco de banana. No fim das contas, está todo mundo se traindo, uma rinha bolsonarista em que a gente torce pela briga, mas acaba temendo pagar o pato junto.
Turma do deixa disso - Tanto a deputada quanto o governador, no entanto, pelo menos no discurso, tentam demonstrar lealdade ao ex-presidente, acatando sua decisão de indicar Carlos Bolsonaro como candidato do Estado. Caroline de Toni falou que o “bairrismo” de Santa Catarina não estava em jogo, mas as liberdades no Brasil, sim (liberdade de ser trouxa, no caso). Já Jorginho, disse que Carlos Bolsonaro é um amigo que luta por um Brasil melhor.
Apesar das falas amenas, não dá para disfarçar a tensão no núcleo político do bolsonarismo local, pois tem gente graúda que pode ficar de fora da festa, isolando o governador de alianças para vencer com folga sua candidatura à reeleição, que até aqui vinha sendo pouco ameaçada.
2 - De olho neles
Tradição - Tradicionalmente, Santa Catarina elege senadores com sólida incursão na política local. Bom, pelo menos elegia. Em 2022, Jorge Seif, também carioca e domiciliado eleitoralmente no Estado por influência de Jair Bolsonaro, conquistou quase 40% dos votos, deixando para trás, com ampla margem, figuras conhecidas e ex-senadores como Raimundo Colombo (PSD) e Dario Berger (então no PSB).
Em 2018, entretanto, a onda bolsonarista foi mais amena na escolha dos senadores, com o eleitor catarinense prestigiando Esperidião Amin e Jorginho Mello (que deixou o cargo para ser governador). O candidato de Bolsonaro, eleito presidente, ficou em terceiro. Lucas Esmeraldino também era um desconhecido do eleitor catarinense, mas por ser outsider, não por não ter vínculo com o Estado.
Partidos se revezam - Nas últimas legislaturas, também há uma espécie de revezamento das legendas mais tradicionais no Estado no Poder. MDB, PSD, DEM, PP e PSDB já foram partidos dominantes localmente, especialmente quando Luiz Henrique da Silveira, ex-governador que na sequência foi eleito ao Senado, conduziu a chamada “tríplice aliança".
Além de Luiz Henrique, o próprio Esperidião Amin, Raimundo Colombo e Leonel Pavan foram ex-governadores que também sentaram em cadeiras de senadores, mostrando que, ao menos para o eleitor catarinense, trata-se de um cargo de prestígio e que consolida o poder de quem já é poderoso.
Jorginho Mello e Jorge Seif quebraram em parte a tradição. Primeiro por terem levado o PL ao Senado, segundo por serem menos tradicionais entre os tradicionais. Jorginho já era uma liderança reconhecida pela passagem na Assembleia Legislativa e Câmara Federal, mas Seif não tinha o carimbo de figurão e de herdeiro de alguma dinastia.
Este quadro deixa tudo em dúvida: o Estado tem tradição oligárquica e de eleger políticos de uma linha mais tradicional, com experiência em assuntos locais, mas rompeu com essa tradição nas últimas eleições. O que nos aguarda agora?
SC no Senado - Hoje, temos no Senado, além de Jorge Seif, Esperidião Amin e Ivete da Silveira, cujo cargo caiu no colo após a eleição de Jorginho Mello ao governo. Amin e Ivete vão deixar as cadeiras para que novos senadores assumam. A expectativa de Jorginho Mello é de fazer dois senadores, mas Bolsonaro pode ter jogado uma dinamite no projeto.
A representação no Senado é bastante vinculada aos Estados, já que, constitucionalmente, os senadores são, de fato, representantes do local que os elege. Para além disso, é considerado a Câmara Alta, com poder de revisão de decisões. Os mandatos são de oito anos e cada unidade federativa tem sempre três políticos ocupando cadeiras, igualitariamente.
Votações - Com base em relatórios de votação nominal do portal do Senado, pedi para a Inteligência Artificial Notebook LM traçar um perfil de como votam os três senadores do Estado e, tal qual esperado, não há muita divergência nas votações de Jorge Seif e Esperidião Amin, com Ivete da Silveira destoando, eventualmente, da dupla de bolsonaristas radicais. No geral, contudo, há alinhamento ideológico.
Pedi também um perfil do forasteiro Jorge Seif a partir dos seus votos na Casa e eis aqui a resposta entregue:
O Senador Jorge Seif (PL-SC) demonstra um perfil de oposição ou cautela em matérias de cunho econômico e fiscal, ao mesmo tempo em que mantém um alinhamento mais amplo em votações de Propostas de Emenda à Constituição (PECs) e aprovações de nomeações para cargos públicos. Sua participação em plenário é marcada por uma combinação de votos ativos, missões e registros de não comparecimento ou presença sem voto registrado.
Já para Amin, respondeu a I.A:
Esperidião Amin, apesar de pertencer a um partido diferente (PP) do Senador Jorge Seif (PL), compartilha um padrão de votação bastante similar, especialmente na oposição a pautas econômicas e fiscais do governo, e no consenso em relação às aprovações de nomeações e a maioria das reformas constitucionais. O registro de "NCom" (não comparecimento) nas mesmas datas de Jorge Seif em 2025 sugere uma ação coordenada ou ausência conjunta.
3 - Deu ruim
O que vem pela frente - Como já é de conhecimento público, Jair Bolsonaro quer aglutinar ao Senado duas pautas em especial para 2026: a sua anistia e o combate a ministros do Supremo Tribunal Federal. O Senado pode abrir processos de impeachment contra figuras que o bolsonarismo quer ver longe, como Alexandre de Moraes e Flávio Dino, por exemplo. Colonizar a alta representação do Congresso com seus familiares é uma forma de impor sua pauta política mesmo que a presidência fique novamente com Lula.
Por que não o RJ? - Carlos Bolsonaro é vereador no Rio de Janeiro desde 2001, quando foi inserido pelo pai na política aos 17 anos. Em 2024, foi o mais votado da Casa, tendo presidido a sessão de abertura. Sua identificação com a cidade e com o Estado legitimam a questão sobre a mudança de domicílio eleitoral e o abandono do cargo público no qual completa bodas de prata.
Há que se lembrar, também, que cada estado elegerá dois senadores, logo, Carlos Bolsonaro poderia concorrer junto com o irmão, Flávio Bolsonaro, pelo estado de ambos. Mas isso implicaria em suprimir alianças possíveis nas eleições do RJ. Por que não fazer isso junto aos tontos de SC, que aceitaram ser tratados a pão e circo de 2018 a 2022, não é mesmo?
E a esquerda? - A esquerda catarinense já teve representação recente no Senado. Ideli Salvatti (PT) foi eleita na primeira onda Lula, em 2002, e seus suplentes Belini Meurer e Luiz Carlos também sentaram na cadeira da Câmara Alta. Depois, nunca mais repetiu o feito. Em 2022, com Dario Berger no PSB fez 16,23% de votos. Afrânio Bropp fez pouco mais de 3%, o que daria uma margem de quase 20% para candidatos do campo progressista buscarem, de forma articulada.
Por enquanto, as movimentações entre os partidos de esquerda são tímidas. Bropp foi lançado pré-candidato ao governo nesta quinta, às vésperas das eleições para os diretórios do PT, cujo processo também deve ser definitivo para o início do desenho eleitoral de 2026. Ainda não há um nome que desponte entre os já conhecidos do eleitorado catarinense, mas é preciso que haja uma aliança para enfrentar Jorginho Mello e João Rodrigues, que minam o debate público com o que há de pior no bolsonarismo.
Fraude Gratuita segue esquecida - Ganhei muitos novos amigos nos últimos dias por conta de um vídeo que hitou no Instagram, com um olhar para a audiência pública de dias atrás que debateu o Universidade (nada) Gratuita e deu ampla voz aqueles que devariam estar combatendo as fraudes escandalosas do programa. O governador Jorginho Mello voltou do Japão e da China, foi para micareta golpista na Avenida Paulista, mas não deu um pio sobre os abusos favorecidos pela sua gestão.
O assunto segue abafado na opinião pública. O deputado Fabiano da Luz sugeriu a criação de uma CPI, mas aparentemente o silêncio impera e a Acafe prospera. A sensação é de que nada aconteceu e de que não tem verba pública em risco. R$ 323 milhões. Cadê?
4 - Craque do jogo
Veio das redes, de forma orgânica, o primeiro gesto de enfrentamento aos desmandos do Congresso Nacional, representado especialmente pela figura de Hugo Motta (Republicanos). As tags Congresso da Mamata, Congresso Inimigo do Povo, Emendas da Corrupção e Hugo Motta Traidor lideraram menções e esquentaram o debate público, que também viu ressoar o Agora é a vez do Povo.
Enquanto analistas políticos da imprensa hegemônica chamam esse movimento como articulação do governo, eu vejo nele espontaneidade e legitimidade na percepção de uma política calcada na sustentação dos privilégios, que é exatamente o que um congresso formado por pessoas brancas e ricas busca. Para além disso, a ideia de fazerem ajuste fiscal ao mesmo tempo em que elevam seus próprios gastos é escandalosamente contraditória.
Se é arriscado que nosso discurso reforce um espírito de “nós contra eles” é ainda mais arriscado ver o poder que eles têm contra nós. Embora legitimamente eleitos, muitos prometendo favores e construindo influência de forma controversa, deputados e senadores são representantes dos cidadãos e têm, por missão, ouvi-los. Então, bora nos fazer ouvir.
5 - Considerações finais
Sem mais delongas me despeço de vocês, pessoal. Seguiremos acompanhando esse fogo pré-eleitoral que começa a tomar conta do país, mas sem perder a ternura. Neste domingo, 6 de julho, haverá a eleição para o diretório estadual do PT, que este ano está bem disputado e deve ditar muitos rumos possíveis para 2026. Pré-candidatos podem começar a surgir em função destes novos desenhos. Lembrando que os diretórios são responsáveis pela consolidação de chapas e rateio de fundos…não é pouca coisa em jogo, portanto.
Volto na semana que vem!
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