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Quarta-feira, 13 de Maio de 2026

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Somos coloniais, escravagistas e fazemos standup. Por Prof. Viaro

Sobre a condenação de Léo Lins

Somos coloniais,  escravagistas e fazemos standup. Por Prof. Viaro
Foto: Reprodução/YouTube
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Episódios como o da condenação do humorista fascista Léo Lins revelam as entranhas não só de uma sociedade que permanece sob a luz da cultura escravagista como a primazia de nossa síndrome de Princesa Isabel. 

Intelectuais brancos que dedicam a vida aos estudos da escravidão e do racismo não raro se colocam como os libertadores de uma raça e exigem que a comunidade negra assim os veja. Não se trata de estudo e entendimento, mas sim da vaidade apontada desde os primórdios da civilização, por Salomão, no livro de Eclesiastes. 

Não entender que a posição de um branco como titular de cátedra, ou palestrante de auditórios lotados, não faz dele uma espécie de revelador da boa nova, mas sim sujeito que necessita provar, a todo instante, suas reais intenções é agir de forma cômoda se declarando um dos semideuses do Poema em Linha Reta, de Pessoa. 

Quando nos idos de 2013, momento turbulento de nossa história política e social, me recrutei ao movimento Quilombista de Mestre Pernambuco o próprio Waldemar Moura de Lima, o Balolá do Quilombo político Acotirene, não só me aceitou nos quadros da militância e do ativismo quilombista, como me fez entender que era necessário um período até que todos os membros entendessem que eu, enquanto branco, tinha boas e reais intenções. 

Naquele momento, entendi perfeitamente que a desconfiança era a razão primeira para a herança de mais de três séculos de exploração da mão de obra escravizada. No final, fui batizado como Khatibu - o "orador" - nome que carrego com o maior dos orgulhos. 

Durante a pandemia, liguei para meu amigo Gleidson Martins, da célula jurídica do MNU (Movimento Negro Unificado), pois me sentia mal por estar ganhando cachês com minhas palestras de educação antirracista. Falei para o amigo que desistiria da função, pois estava me sentindo como um branco que lucrava com a causa alheia. As palavras de Gleidson explodiram em meu ouvido: "irmão, tu fala para um público que é tão racista que não permite um palestrante negro". Permaneço na função até hoje. 

Fico me perguntando como podem acadêmicos brancos se colocarem como os libertadores de uma raça humilhada desde a chegada de Cabral? De onde sai, que não da arrogância e soberba, a ideia de que a aceitação será automática e digna de louros? Afinal de contas, o branco que se dedica a ensinar letramento racial e fazer parte das trincheiras do antirracismo o faz por questões morais ou necessidade de aplauso? 

No momento em que nos deparamos com a condenação de um fascista que usa o humor como saída para um crime perfeito, nos colocamos na defesa da liberdade do sujeito em questão? Será mesmo plausível que se trate o preconceito como algo menor? 

A maioria das pessoas que se dedica aos estudos do racismo e de demais preconceitos não possui a real dimensão e peca por buscar repertório em textos arcaicos e gabinetes climatizados. Ou seja, ou estuda pelo fetiche do aplauso ou por uma forma tácita e inconsciente de buscar o autoperdão. 

Quando se discute a pena aplicada ao fascista do standup se está mandando um recado claro: nós não entendemos o preconceito como algo grave. Não entendemos o preconceito como algo que fere as entranhas da vítima. Não entendemos o preconceito como algo que defenestra a própria dignidade. 

Diante de tudo o que se disse e ainda se vai dizer, alguma questões se tornam necessárias e urgentes: vamos nos calar diante da articulação parlamentar que visa flexibilizar a "Lei do Racismo"? Vamos fingir que negros não são vítimas de um território que muito antes de se tornar um país já era utilizado como depósito para todos eles? Depósito de gente? Vamos simplesmente dizer que a pena é alta e dura porque na nossa opinião condenar alguém que "apenas" discrimina alguém pela cor da pele é injusto? 

Existem aqueles que defendem que o fascista em questão não vale absolutamente nada, porém não entendem que ele deva ser condenado. Pasmem, mas preciso revelar um segredo: a imensa, suprema e total maioria dos que pensam assim são brancos, homens, héteros e não possuem dificuldade de locomoção. Ou seja, não são objetos de piada do fascista. 

Dizer que a pena é dura, antes mesmo de entender do que se trata, é criar de forma repugnante, embora por vezes inconsciente, a reserva de todos os espaços para que opressores de toda ordem possam de fato ter a liberdade total de sua expressão. Ou melhor, liberdade de crime. 

Brancos, no Brasil, possuem reserva para tudo e querem tirar dos negros a única coisa que lhes resta: a capacidade de organização coletiva como forma de reação à desumanização. 

Oito anos foi pouco. 

Adriano Viaro

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