Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.
Eu adoraria ser uma pessoa um bocadinho mais otimista, mas quem anda com os olhos bem abertos para a realidade da política capEtalista mundial, sofre com essa doencinha crônica do realismo.
Nos últimos dias, tivemos corte no “Bolsa Bilionário”, aumento de pena para pedófilos, mais um bolsonarista preso, Barroso defendendo os direitos reprodutivos das mulheres... A semana foi de alguns avanços, que até permitem uns devaneios e sonhos dos mais otimistas, mas eu prefiro não criar expectativas. Deixo as ilusões ensadecidas para o Little Banana, que parece ter se mudado para o seu próprio multiverso da loucura.
Quando o noticiário parece bom demais pra ser verdade, é porque o caos pode estar carregando o café da manhã. Pelo menos o roteirista do Brasil não tem o sobrenome Dias... (Assim espero!)
E vamos de cappuccino com croissant comigo hoje, porque depois que a Odete Roitman ressuscitou, é necessário um mimo para sobreviver a uma desilusão novelística desta monta, meu bem.

SEM NESPRESSO
Cortaram o cappuccino dos ricaços?! Depois que o pessoal lá da Câmara dos Deputados lembrou que tem eleições em 2026, para que finalmente começaram a atender os pedidos do povo, já que renúncia fiscal não é milagre divino, e sim privilégio de elite.
A aprovação simbólica do corte de 10% no “Bolsa Milionário” soa quase como um plot twist: o dia em que o Congresso resolveu cobrar imposto de quem tem helicóptero. É bonito ver a elite empresarial suando frio ao som de palavras como “transparência” e “avaliação periódica”.
Mas calma lá, meu bem: que este o corte é simbólico, a votação também, e a dor de cabeça dos bilionários será tratada com nota fiscal fria e analgésico importado. Ainda assim, há um certo prazer cívico em ver o chororô da Faria Lima. Afinal, quando o cafezinho deles amarga, o nosso ganha até espuminha.
ENTRE A FOME E O VENENO
Enquanto o governo corta o cafezinho dos ricaços brasileiros, o resto do mundo segue alimentando os bilionários com café gourmet e servindo veneno no prato dos pobres.
Lula foi a Roma, no Fórum Mundial da Alimentação, para lembrar ao mundo o que ele sempre disse: a fome é uma escolha política. O presidente esfregou na cara dos engravatados o paradoxo que move o planeta: enquanto 673 milhões de pessoas estão sem comida, há cerca de 3 mil bilionários com 14,6% do PIB global na conta. O problema nunca foi falta de recursos, mas sobra de ganância.
Mas o capEtalismo não recua. A Europa, que se diz “verde”, exportou mais de 14 milhões de litros de agrotóxicos proibidos para o Brasil. Colonialismo químico com sotaque francês e lucro alemão. Porque veneno no fígado dos outros é dinheiro no bolso de quem está do lado de cá do oceano, comendo sua saladinha orgânica. O veneno é importado, mas a fome continua sendo produzida localmente.
ANISTIA WHO?
Paulinho "do Lado Escuro" da Força prometeu texto, prometeu reunião, prometeu barulho, e só conseguiu entregar foi um chá de sumiço. O PL da anistia virou o fantasma da ópera da Câmara: todo mundo fala dele, mas ninguém o vê. O projeto, que pretendia “ajustar” penas dos golpistas de 8 de janeiro, agora flutua entre gavetas e desculpas, enquanto o Senado já decretou que “não há clima político”. Ah, cêis juram, monas?
E se for por falta de termômetro para medir o clima, lá na Paraíba o povo tratou de fornecer um: Hugo "Nem Se Importta" foi vaiado em pleno evento com Lula, sob gritos de “Sem anistia!”. Uma belíssima e didática cena, onde Lula até tentou a conciliação, ficando de pé ao lado de Motta, mas carisma é intransferível!
O coro dos professores falou mais alto. Brasília ouviu. O Centrão sentiu o frio na espinha. Moral da história: quem anda brincando de perdoar golpista está prestes a ganhar o prêmio “silêncio constrangedor” do ano.

Nem Lula salvou... (Foto: Mauro Pimentel/AFP)
00171 – LICENÇA PARA DESMATAR
Enquanto Lula combate a fome, o Senado brasileiro ensaia transformar o desmatamento em política pública. Davi Alcolumbre, sempre ele, jurou que ia votar os vetos de Lula ao PL da Devastação. E no dia seguinte? Simplesmente… adiou.
O timing foi tão clichê quanto um roteiro escrito pela Manuela Dias: às vésperas da COP30, o país sede da conferência do clima quase aprovou o fast food do licenciamento ambiental. Randolfe correu pra apagar o incêndio antes que Belém virasse palco de constrangimento global, e Alcolumbre fingiu que foi tudo “a pedido do governo”.
O agronegócio chiou, os ambientalistas surtaram, e o Senado seguiu com seu talento natural pra procrastinar tragédias. Mas a sessão foi cancelada, o verde da Amazônia agradeceu, e o resto do planeta suspirou aliviado por mais uma semana de floresta em pé.
GAME OF TOGAS
Sai Barroso, entra o burburinho. Mal o ministro anunciou que vai pendurar a toga, o Brasil está virando um grande auditório do The Voice Supremo. Todo mundo tem uma opinião sobre quem deve sentar na cadeira giratória da Constituição. Entidades jurídicas cobram diversidade, Cármen Lúcia avisou que não vai opinar diretamente (mas todos sabem a sua posição), e até artistas (de Fernanda Torres a Anitta) andam fazendo coro por uma ministra mulher. De preferência negra. O STF anda mais pop que nunca...
Mas, no bastidor, o enredo é o de sempre: Lula diz que não quer “amigo”, mas o nome favorito continua sendo Jorge Messias, o Advogado-Geral da União (técnico, discreto e já sem resistência no Senado). Se for confirmado, o Supremo continuará com o mesmo problema estético de sempre: um oceano de ternos cinzentos e apenas uma mulher no meio, Cármen, segurando o feminismo da República com um olhar de quem já viu de tudo... e não se surpreende mais.

Foto: Montagem feita com IA
CHAVE DE OURO vs PÁ DE CAL
Barroso decidiu sair deixando recado em letras garrafais: descriminalizar o aborto até 12 semanas é questão de direito, saúde e dignidade para todas as pessoas que gestam. O Ministro pediu sessão, registrou voto e ainda cutucou o Brasil real com dados que doem mais que sermão de domingo. É o gesto final de quem sabe que autonomia reprodutiva não cabe em um código penal de 1940.
No mesmo respiro, levou um chega-pra-lá da maioria ao ampliar, por liminar, a atuação da enfermagem no aborto legal. Cinco colegas correram para derrubar a liminar. Moral da história: o ministro sai pela porta da frente com um voto histórico, mas deixa no tapete a marca do tapinha institucional no ombro dizendo calma aí. Entre chave de ouro e pá de cal, o recado ficou dado. E os direitos reprodutivos de quem gesta? Who cares?
SR. BANANA NO MULTIVERSO DA LOUCURA
Nosso correspondente internacional do caos segue brilhando em sua carreira solo. O nosso Little Banana já perdeu o prazo pra se defender no processo em que é acusado de ajudar Trump a ferrar o Brasil, e Xandão até mandou a Defensoria Pública como advogada de ofício. A ironia é poética: o herdeiro da meritocracia sendo defendido por um órgão criado pra proteger pobres e vulneráveis. O karma trabalha em regime integral.
Mas este arco está longe de acabar. O não tão jovem mancebo ainda tentou sabotar uma reunião entre Mauro Vieira e Marco Rubio, nos EUA, e foi barrado na porta do Departamento de Estado. Um vexame diplomático digno de sitcom!
E, enquanto o filho brinca de embaixador do ridículo, o papai inelegível festeja os 15 anos da filha com autorização especial de Moraes. O convescote teve direito a visitas controladas, carros revistados e zero celular: o baile mais vigiado do país. E assim segue a Familícia: com cada membro do clã preso em seu próprio enredo.
DE HOJE EM DIANTE, SÓ QUERO BOAS NOTÍCIAS...
O milagre de outubro II: o Congresso decidiu, por um breve instante, fingir que realmente se importa com o futuro. A Câmara aprovou um combo de projetos que aumenta a pena pra pedófilos, protege influenciadores mirins e ainda garante o piso salarial pra professores temporários. Eis aí um raro momento em que a pauta não cheira a enxofre.
O pacote foi batizado de homenagem ao Dia das Crianças e dos Professores, mas, honestamente, parecia mais um esforço coletivo pra limpar a barra depois das semanas de anistia, devastações e escândalos. De qualquer forma, vale o registro: por algumas horas, Brasília pensou nas crianças. E sem precisar de dancinha no TikTok!!
E por hoje é só, minha gente! No país da piada pronta, a gente segue servindo cafézim forte, com uma colherinha de bom humor. Porque, enquanto eles planejam o fim do mundo, a gente continua aqui, comentando o roteiro.
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