"Faz tempo que eu digo não
Ao velho discurso cristão, sou Manicongo
Há duas cabeças em um coração
São tantas e uma só, eu sou a transição
Carrego dois mundos no ombro"
O Carnaval é símbolo de alegria e diversão; é o momento em que o povo brasileiro exorcisa seus demônios e extravasa suas dores e dissabores. No entanto, no País das contradições, nem sempre é possível rir, especialmente quando ainda lideramos o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans e travestis. Por isso, a coluna de hoje não tem humor.
Usando uma “faixa presidencial”, a deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP) foi destaque na Comissão de Frente, da escola Paraíso do Tuiuti, na terça-feira de Carnaval, durante o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Em seu samba-enredo, “Quem tem medo de Xica Manicongo?”, a escola contou a história da primeira travesti de quem se tem registro na história do Brasil, ainda no século 16. Morta pela (não tão) Santa Inquisição, Xica trabalhava para um sapateiro, em Salvador-BA, quando foi denunciada à Igreja pelo português Matias Moreira. Entre seus "crimes" estavam a orientação homossexual e a forma como Xica se vestia. Em suma: morreu por existir, por ser fiel a quem ela era.
Assim como Xica Manicongo foi silenciada e condenada séculos atrás, hoje ainda assistimos a novas formas de censura. Durante a transmissão do desfile, ao mostrar a concentração da escola, a Globo decidiu cortar o momento em que Érika Hilton começou a fazer um discurso. A censura é apenas uma das muitas violências que a comunidade trans sofre no Brasil, com a conivência da grande mídia, que segue tapando o sol com uma peneira.
Historicamente, a Globo sempre deu um jeito de eliminar momentos em que pessoas LGBTQIAPN+ apareciam em posição de autoridade, de protagonismo. Seja em entrevistas ou em suas produções, a travesti só “servia” para a emissora, se fosse em um lugar de humor, de deboche, de caricatura rasteira. Mas, apesar de tudo isso, como disse Érika Hilton, “quem diria que depois de 40 anos de Sapucaí, uma mulher grande, preta e trans seria o enredo do maior espetáculo do mundo”?
Passei da infância à adolescência assistindo a Vera Verão, um marco da televisão brasileira. Jorge Lafond em toda sua glória e bom humor, escancarava a hipocrisia de uma sociedade onde uma travesti só poderia estar na TV, se fosse para fazer rir a “tradicional família brasileira”. Com sua icônica frase, “Não nasci pra ser normal, nasci pra ser feliz!”, Lafond mostrou a toda uma geração de crianças que não se viam no modelo heteronormativo, que era possível brilhar sendo fiel a si mesmos.
Mesmo com tanto tempo passado desde o acontecimento que foi Vera Verão, as travestis ainda “assustam” este país. Em 2024, cerca de 122 pessoas transexuais e travestis foram assassinadas no Brasil. Quantos destes casos foram mostrados na mídia hegemônica?
A Globo claramente tem um lado, e esse não é o lado do povo, muito menos do povo LGBTQIAPN+. A censura ao discurso de Érika Hilton foi apenas mais uma demonstração do quanto essa política institucional direitista e conservadora da emissora carioca está tão atuante quanto esteve durante a ditadura militar brasileira. Apesar das tentativas de silenciamento, a comunidade segue resistindo. E como prova viva dessa resistência, Érika Hilton desfilou na Sapucaí, ocupando um espaço que, por séculos, foi negado às mulheres trans.
À comunidade LGBTQIAPN+, fica o exemplo de perseverança e o recado claríssimo: por mais que tentem nos apagar, AINDA ESTAMOS AQUI – e continuaremos a estar!
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