Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.
Apertem os cintos, porque o piloto não sumiu, mas está dando muitos voôs rasantes! E o piloto, no caso, é o roteirista no Brasil. Nas últimas semanas, o Brasil sofreu com tempestades de naturezas diversas: chacina, tornado, aprovação de lei que beneficia o povo e de lei que mata crianças, COP30...
Enquanto isso, o Inelegível Soluçante está a dois passos. Do Paraíso? Não! Da Papuda. E a gente não vê a hora de dizer “bye-bye, Bozo, bye-bye”. Enquanto isso, a extrema-direita segue se digladiando. É cobra engolindo cobra e gente está só o meme do patinho: “Briguem, desgraçados, briguem!”.
Prezados passageiros, entramos em modo de cruzeiro e vamos viajar pelos acontecimentos dos últimos dias. Pipoca liberada.

QUEM PRECISA DE INIMIGOS?
Quem precisa de inimigos, quando se tem Hugo Motta como “aliado”? O PL Antifacção nasceu como um projeto do governo pra fortalecer o combate ao crime, mas virou um Frankenstein bolsonarista com DNA de milícia. Principalmente depois que Guilherme Derrite, discípulo da velha turma do “bandido bom é... (complete)”, foi escolhido como relator e resolveu reescrever tudo sem sequer avisar o Ministério da Justiça. O resultado? Um texto que entrega o controle das operações da Polícia Federal aos governadores – sonho molhado de qualquer político que tenha medo do “Toc, toc, toc” da PF em sua porta.
Enquanto rola a COP30 com debates sobre o clima e a Amazônia, a Câmara solta fumaça com esse golpe parlamentar disfarçado de projeto de segurança. Hugo “Nem Se Importa” liberou o relatório de Derrite bem na semana em que o governo estava com a cabeça no Pará. Chamam isso de autonomia do Legislativo. Eu chamo de trairagem.
E como pano de fundo desse teatro, a Rede de Observatórios da Segurança revelou que mais de 4 mil pessoas foram mortas por policiais em 2024, 86% delas negras. É o retrato cru do país que Derrite e companhia dizem querer “proteger”: um Estado que chama de “guerra ao crime” o genocídio de jovens pretos e pobres. O Brasil não precisa de um PL Antifacção. Precisa de um PL Anti-Canalhice.
CÂMARA INIMIGA DAS CRIANÇAS
Saudade de quando o grande inimigo das crianças era o Baixo Astral, no filme da Xuxa. Atualmente, os piores inimigos das nossas crianças e adolescentes usam terninhos e circulam pela Câmara dos Deputados, um universo paralelo onde ética é ficção científica. A mira deles voltou-se contra as meninas vítimas de estupro (como se já não tivessem sofrido uma violência indescritível).
Por 317 votos, nossos "representantes" aprovaram o “PDL da pedofilia”, suspendendo a resolução que garantia atendimento digno e seguro às crianças violentadas. Segundo a lógica cristofascista vigente, o corpo da menina é sagrado… mas só até o estuprador engravidá-la. O ICL publicou a lista completa dos deputados que votaram a favor dessa excrescência. Confira aqui.
Enquanto isso, pelo menos nove capitais foram às ruas para lembrar o óbvio: menina não é mãe, e estuprador não é pai. Mas em Brasília, parece que a cegueira moral virou critério de promoção. Chris Tonietto e sua tropa da pureza continuam confundindo “defesa da vida” com tortura institucional.
O Brasil tinha 34 mil crianças e adolescentes de 10 a 14 anos que viviam em união conjugal em 2022, segundo dados divulgados pelo IBGE. Com tanta “proteção à infância”, o Congresso se consolida como o maior inimigo das crianças desde o Homem do Saco.
RICO PAGA, POBRE RESPIRA
Acendam uma vela pro seu santo de eleição, agradeçam a quem quiser, mas o negócio foi milagroso: o Senado aprovou uma coisa boa! A faixa de isenção do Imposto de Renda subiu pra R$ 5 mil, e quem ganha mais vai finalmente pagar um pouquinho do cafezinho da conta coletiva. É o primeiro sinal de justiça tributária, com atraso de pelo menos uns trinta anos.
Agora ninguém mais chamar o ministro Fernando Haddad de “Taxad”. Agora é “Haddadinho da Massa”, que vai dar um rolê nacional pra celebrar a façanha. E com razão: pois 25 milhões de brasileiros vão deixar de ser sugados pelo Leão, que por décadas só rugia pra quem andava de busão.
Enquanto isso, os bilionários vão descobrir o prazer exótico de pagar 10% de imposto. Mas calmos, usuários de Prada, vocês vão sobreviver. E o povo vai celebrar, junto com o Governo. Afinal, no país onde a elite sempre tratou o imposto como pecado e o pobre como culpa, qualquer avanço já é revolução.
NÃO OLHE PRA CIMA
Direto de Belém, a COP30 trouxe a proposta mais revolucionária desde a invenção da geladeira: taxar jatinhos, iates e fortunas obscenas pra financiar ações climáticas. A ideia é simples: quem ferra o planeta paga a conta. O difícil vai ser convencer os donos dos jatinhos que CO₂ não é um tipo novo de perfume.
O Brasil, como anfitrião, apresentou o tal “mapa do caminho” pra levantar US$ 1,3 trilhão por ano e impedir que a Terra vire um forno com Wi-Fi. As sugestões vão desde precificar carbono até cobrar imposto sobre artigos de luxo e brinquedinhos de guerra. Chique, né? Sustentabilidade com champanhe francesa e multimilionários fingindo consciência ambiental enquanto pousam em Belém de Gulfstream.
Se der certo, ótimo: os super-ricos finalmente devolverão à atmosfera um pouco do ar que roubaram. Se não der, pelo menos é divertido assistir à elite global suando no calor amazônico, enquanto tenta parecer sustentável. Afinal, carbono oculto mesmo é o do jatinho que trouxe metade deles pra cá.
BIG ENEMY BRASIL
O reality show da extrema-direita mudou. Ninguém mais é “brother”, é todo mundo “enemy” (inimigo). Little Banana surtou nos EUA e declarou guerra a meio mundo de gente do PL, chamou Tarcísio de “candidato do sistema”, Zema de “elitista”, Ciro Nogueira de “traidor” e sobrou até pra Nikolas, Campagnolo e Tereza Cristina. O moço brigou tanto que já pode abrir uma frente ampla... de desafetos.
Enquanto isso, o irmão Carluxo tenta invadir Santa Catarina pra disputar o Senado, atropelando Caroline de Toni e deixando o PL local em chamas. Júlia Zanatta correu pra defender o clã, como sempre, e agora o estado tá dividido entre os que querem um senador catarinense e os que acham que nepotismo é herança genética.
No fim, é só mais um capítulo da série “The Bolsonaros”: uma mistura de Succession com Zorra Total, só que sem roteiro. (P.S.: Eu acho que pior inimigo do 03 é ele mesmo.)
AI, AI, AI, AI, TÁ CHEGANDO A HORA
Sabem quem tá quase trocando a tornozeleira pela cela: Bolsonaro e seu elenco de apoio. O STF manteve, por unanimidade, as condenações da turma do golpe: Braga Netto, Ramagem, Heleno, Torres… um verdadeiro Dream Team da delinquência institucional. Moraes e Dino foram lá e carimbaram: “sem choro nem recurso, bebê”!
De casa, Bozo soluça e assiste o roteiro da própria ruína em tempo real. Sem cercadinho, sem multidão. Só ele, a tornozeleira e o eco da própria decadência. O Brasil observa, dá um gole no café e canta baixinho: ai, ai, ai, ai... tá chegando a hora.
DE HOJE EM DIANTE, SÓ QUERO BOAS NOTÍCIAS...

Foto: ABL/ Dani Paiva.
Nem tudo no Brasil é tragédia, minha gente! A escritora Ana Maria Gonçalves, autora do monumental livro “Um defeito de cor”, acaba de entrar para a Academia Brasileira de Letras. Com ela, entrou também a ancestralidade, a coragem e a palavra da mulher preta, que a sociedade finge não ouvir desde sempre.
Primeira mulher negra entre os “imortais”, Ana chegou saudando os ancestrais: “Benção, mãe. Benção, pai.” E foi ovacionada por quem entende que a verdadeira eternidade está em reescrever a história que nos negaram. Gilberto Gil entregou o diploma, Fernanda Montenegro segurou as lágrimas, e Conceição Evaristo resumiu tudo: “É a conquista de todas nós.”
A Casa de Machado de Assis (que por tanto tempo escondeu o próprio Machado) agora acolhe uma mulher que escreve como quem cura feridas. É o Brasil que deu certo, pelo menos por uma noite. E, sinceramente, que esse defeito de cor vire padrão de beleza da nossa literatura.

Ana Maria Gonçalves recebeu o diploma das mãos de Gilberto Gil. Foto: ABL/ Dani Paiva.
E por hoje é só, minha gente! No país da piada pronta, a gente segue servindo cafézim forte, com uma colherinha de bom humor. Porque enquanto o roteiro for trágico, a gente responde com ironia e café passado na coragem.
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