Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.
Por mais que se tente manter algum grau de otimismo, quem escreve o roteiro do mundo globalizado não colabora nem com a nossa sanidade mental, quanto mais com o otimismo.
É político investigado escapando sorrateiro do Brasil. É proto-ditador estadunidense bancando o imperador do planeta. É o Velho Mundo, mais uma vez, flertando com ideias perigosas e despejando a culpa dos próprios fracassos sobre os imigrantes. É o Legislativo brasileiro estufando o peito, querendo mandar mais que o Executivo e o Judiciário. A lista parece interminável...
E nós, cidadãos comuns sem cargo político ou toga no armário? Restamos à mercê dos donos do Capital. Aqueles que juram que tudo o que fazem é “para o nosso bem”, mesmo que o nosso bem esteja cada vez mais parecido com um inferno gourmetizado.
Sigo torcendo para que esse pesadelo coletivo dê uma trégua. Para que a dignidade volte a ser mais que uma palavra bonita em discurso. Para que o trabalho seja valorizado e ninguém precise dormir com fome, enquanto influencer chora porque a babá não foi trabalhar (foi ao médico).
Enquanto isso não acontece, respira fundo. Vamos destrinchar os absurdos da semana. Vem comigo!

FLOP BILÍNGUE
Enquanto o povo brasileiro tenta sobreviver ao fim do mês e às parcelas do cartão, um grupelho folclórico resolveu sair às ruas no domingo (20) para defender... Donald Trump. Sim, o presidente dos Estados Unidos. Gritaram “anistia já”, “fora Moraes” e “Trump, contamos com você”, como se a salvação do Brasil estivesse no combo do boné do MAGA + bíblia debaixo do braço.
Agora vejam, que quando falo em distopia, não estou exagerando. Tinham bandeiras do Brasil, dos Estados Unidos, de Israel e até do BRASIL IMPÉRIO. Mas, de Brasília à Av. Paulista, o que se viu foi um show de flopagem com direito a Damares e Bia Kicis fazendo discurso para uma plateia minguada, com ares de culto político em liquidação.
No fundo, esses protestos nunca foram sobre liberdade ou soberania. São o retrato decadente de uma pseudo-elite ressentida, que se ajoelha para os interesses estrangeiros, tentando vender o país em troca de migalhas. Em sua maioria, o que realmente falta a este falsos patriotas é um “chá revelação” de classe social.
VENDILHÕES DA PÁTRIA
E por falar no Presidente Cheetus... Tem coisa que a gente vê e tem que checar três vezes pra confirmar que não é alucinação (ou IA). Foi o caso desta terça (22), quando deputados da oposição estenderam (DENTRO da Câmara) uma faixa em homenagem ao Trump. Sim, gente! O laranjão lá, que meteu 50% de tarifa nos produtos brasileiros.
Com a tal faixa e segurando uma bandeira dos Estados Unidos, parecia que os deputados confundiram Brasília com o Capitólio. Só esqueceram que não estavam em Miami nem em live bolsonarista, e que aquele chão que pisam é pago com dinheiro público brasileiro. NOSSO dinheiro.
O resultado foi previsível: 77% das reações nas redes sociais foram de repúdio. De “lesa-pátria” e “capachos” a “Mama Americanos Again”, não foram poucas as ofensas dirigidas aos deputados envolvidos nessa palhaçada. O gesto foi tão vergonhoso que até outros parlamentares de direita presentes pediram para eles tirarem a bandeira.
Enquanto isso, Bolsonaro segue de tornozeleira, Trump segue taxando o Brasil, e os deputados da oposição seguem mostrando que seu conceito de soberania nacional cabe num chaveiro com a Estátua da Liberdade. Quando achamos que o viralatismo bolsonarista não podia descer mais, eles aparecem com uma pá azul, vermelho e branco.

Imagem: Eu queria que tivesse sido criada por IA / Reprodução: ICL
MAKING AMERICA ANGRY AGAIN
Segundo o Washington Post, o tarifaço de Trump contra o Brasil sequer entrou em vigor ainda e já está saindo pela culatra. O jornal chamou o ataque de “desajeitado” e diz que, ao tentar agradar Bolsonaro e punir Moraes, o ex-reality star acabou fortalecendo Lula, unindo até parte do empresariado nacional contra essa palhaçada. De quebra, ainda revelou o verdadeiro objetivo: proteger um ditador de estimação e sabotar a Justiça brasileira.
Como disse um diplomata, “Papai Noel chegou cedo para Lula” (e o presente veio direto da “Casa Laranja”). Sua batata está assando, Presidente Cheetus!
CHORA, BONEQUINHA!!
Sabem qual é a parte boa de viver dentro de um capítulo aleatório de Black Mirror? É que, de vez em quando, o roteiro acerta um plot twist gostosinho para o “lado bom da força”. Dessa vez, o presente veio em forma de crise no bolsonarismo.
A tão sonhada anistia já foi enterrada com pompa e desprezo. Os atos perderam força e não passam de vergonha-alheia. Os “aliados” andam desconfiando uns dos outros. E, para completar o bingo do caos, tem até sanção internacional no radar. O que era pra ser um “levante patriótico” virou uma guerra de vaidades entre deputados de pulso frouxo e filhos ressentidos do inelegível.
No Congresso, a direita já percebeu que o bolsonarismo está agonizando, rumo ao seu inevitável fim. O PL tenta manter a pose enquanto derrete por dentro. Até os parlamentares do centrão perderam a paciência! Hugo Motta ressabiado, com medo de que a próxima bomba midiática tenha o DNA do gabinete do Carluxo. O resultado? Perda de influência, fragmentação interna, e um silêncio constrangedor onde antes havia grito e cloroquina.
O que eu acho disso? Quero mais que briguem, se destrocem e acabem uns com os outros. Se é pra afundar, que afundem sozinhos. Podem desaparecer! Não deixarão saudades...
A FUGA DAS GALINHAS (parte IV)
Esse galinheiro está ficando cada dia mais vazio. Marcos do Val, o eterno protagonista do spin-off “Bolsonarismo: versão traja preta”, resolveu dar um pulinho na Flórida, mesmo com o passaporte comum retido por ordem do STF. Usou o passaporte diplomático, claro. Aquele mesmo que estava sumido, que não foi encontrado pela Polícia Federal, mas que apareceu “magicamente” na foto debochada que ele postou em seu Instagram. A cara nem treme! (O olho eu já não posso dizer o mesmo...)
A resposta de Moraes veio na voadora: bloqueou contas, cartões, PIX... por mim bloqueava até o Wi-Fi do fujão! O vexame é tanto que nem os colegas de circo estão tentando defender. Do Val ainda teve a pachorra de se declarar vítima de “violações graves”, enquanto foge do país com cara de quem acabou de ver um duende no corredor do Senado.
Se essa é a nova oposição “moderada”, o Brasil corre menos risco com os extremistas.
PINTOU UMA CONDENAÇÃO
Infelizmente, não foi ainda aquela que estamos todos à espera.
O réu inelegível Jair Bolsonaro foi condenado a pagar R$ 150 mil por danos morais coletivos e, mais importante ainda, proibido de fazer referências sexuais a crianças e adolescentes. Parece óbvio? Também acho. Deveria ser. Mas foi preciso uma sentença...
A decisão é resultado daquele episódio asqueroso em que ele, no meio de uma entrevista em 2022, falou que “pintou um clima” com meninas venezuelanas de 14 e 15 anos. O tribunal classificou o discurso como misógino, aporofóbico e uma afronta à dignidade de jovens em situação de vulnerabilidade. E é exatamente isso que foi.
A cereja podre do bolo é que ele, além de falar essa atrocidade, ainda tentou se justificar dizendo que tudo foi tirado de contexto. Truque barato de quem sabe que falou merda e corre pro abrigo da “liberdade de expressão”.
Mas o TJDFT não comprou o teatro. Determinou a multa, a proibição, e ainda lembrou que liberdade não inclui discurso sexualizado contra menores. Agora resta torcer para que a Justiça também tenha memória longa, porque o histórico do ex-presidente com crianças já deu mais vergonha que qualquer “clima” maldito que ele ache que pintou.
Que venham as próximas condenações, para extirpar este e outros tumores malignos da sociedade e da política do Brasil.
DE HOJE EM DIANTE, SÓ QUERO BOAS NOTÍCIAS...
Segundo a mais recente pesquisa Pulso Brasil/Ipespe, os brasileiros continuam com um olhar mais favorável para o governo federal e o STF do que para o Congresso “Inimigo do Povo”. Lula e o Supremo empatam com 43% de aprovação. Não é um estoooouro de popularidade, mas é mais que o dobro do que conseguem Câmara e Senado, que patinam em 24% e 25%, respectivamente.
Isso mesmo: nossos “ignóbeis” parlamentares conseguem ser menos aprovados que fila do INSS em dia de greve. A expectativa de melhora no governo também cresceu, e isso num país acostumado a esperar sentado. Já o Legislativo parece ter consolidado sua vocação como clube de influenciadores de baixa relevância: muito barulho, pouca entrega e zero credibilidade.
E o que o povo acha das medidas contra Bolsonaro? A maioria apoia. Pra 54% dos entrevistados, as cautelares aplicadas por Xandão (incluindo tornozeleira eletrônica) foram adequadas ou até leves. Apenas 43% acharam exageradas ou descabidas. Os demais provavelmente estavam rindo da cena do “mito” de tornozeleira, junto com a gente.
Mesmo com toda a encenação de vítima e os gritos de “ditadura do Judiciário”, o brasileiro médio parece estar mais alinhado com Xandão do que com o Carluxo transmitindo de Miami. Pode não ser ainda o renascimento da razão, mas ao menos é um sinal de que a paciência coletiva com a extrema direita anda tão curta quanto a “coleira” eletrônica do ex-presidente.
E por hoje é só, minha gente! No país da piada pronta, a gente segue servindo cafezim forte, com uma colherinha de bom humor. Até porque, nóis trupica, mas não cai!
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