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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026

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"Como as democracias morrem" é péssimo ao abordar a Venezuela. Por Pedro Zambarda

Uma resenha

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Por Pedro Zambarda, editor.

Ouvi em um audiolivro, mesmo tendo acesso à obra original, de "Como as democracias morrem". O livro é antigo, de 2018, e, portanto, datado. Mas não consigo não tecer algumas considerações a sua visão. Acertadamente, é uma obra que merece ser observada com atenção.

Observada por democratas, democratas liberais, socialistas, defensores de ditaduras e quem discute ideologicamente os sistemas políticos diferentes.

Steven Levittsky é cientista político e professor em Harvard. Daniel Ziblatt leciona ciência governamental na mesma entidade. A obra deles se tornou um best-seller óbvio, sobretudo no jornal The New York Times, por tecer críticas contundentes ao regime de Donald Trump, ainda em primeiro mandato.

Ótimo histórico

Com nove capítulos, os dois autores fazem toda uma retrospectiva para as fundações dos Estados Unidos para explicar como as suas instituições estão apodrecidas e se corroeram até a ascensão de um autocrata que tem votos como é o caso de Donald Trump, uma figura midiática impulsionada pela ideologia de extrema direita. Os cientistas apuram as causas, apontam cada um dos elementos definidores do sistema político, e sim econômico, dos EUA.

E a partir de bases bem fixas, Levittsky e Ziblatt avançam para contextos internacionais diversos, apurando também possíveis ditaduras e os seus dispositivos de sustentação.

O calcanhar de Aquiles dessa análise

Em entrevistas para a imprensa brasileira, inclusive em uma participação no Roda Viva, Levittsky teceu elogios ao sistema brasileiro que, através de figuras como Alexandre de Moraes e Lula, se blindaram de tentativas explícitas de golpes de Estado. Traçou paralelos entre o 8 de janeiro brasileiro e o 6 de janeiro dos americanos.

Mas a falha da análise se apresenta justamente nessa ponte. Ao analisar a Venezuela presidida por Hugo Chávez e Nicolás Maduro, os dois autores se restingem a questionar os sistemas eleitorais e apontar que ambos os líderes expandiram o número de juízes de Suprema Corte, "fechando o regime".

O livro não pretende ser uma análise detida ao caso venezuelano, mas fracassa ao não considerar o embargo econômico e as sabotagens diversas que aquele país latino-americano vive desde o Caracazo de 1989 e como o poder popular emergiu através de uma aliança civil e militar.

Levittsky e Ziblatt mostram uma miopia ao não evidenciar o que aconteceu na primeira semana de 2026: Maduro, o "ditador" frequentemente atacado pelos Estados Unidos, foi alvo de uma invasão pelo ar, sequestrado enquanto presidente da República e humilhado por Trump.

Donald Trump que nem esconde que fez o que fez não por causa de um cartel de drogas e sim pelo petróleo venezuelano que passará a ser alvo das empresas americanas.

Maduro, discípulo de Chávez, buscou proteger os interesses soberanos da Venezuela. É mais ditatorial quem sequestra presidentes ou aquele que toma medidas contra uma oposição de extrema direita?

Oposição venezuelana essa que não é sequer respeitada pelo extremismo trumpista - falo de você mesma, Maria Corina Machado, premiada com o Nobel da Paz e humilhada por Trump.

Concluindo

Mesmo com essa análise rasa sobre a Venezuela, "Como as democracias morrem" é um ensaio que precisa ser visto e revisto. Suas debilidades não estão no seu foco. E a virtude no livro está justamente em contar muito bem a história da derrocada do império americano.

O império dos EUA que se exaltava com o primeiro filme Gladiador, estrelado por Russell Crowe, numa Roma gradiosa espelhando outro tempo de Hollywood, e que hoje se humilha em Gladiador 2.

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