A dois dias do primeiro turno das eleições presidenciais, analistas políticos do Labop FESPSP (Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) projetam um cenário de empate técnico no primeiro turno. Baseados na estabilidade histórica da série Datafolha — que aponta 42% dos votos para o presidente Lula e 38% para o senador Flávio Bolsonaro no cenário estimulado, com uma diferença estabilizada em 4% —, Beto Vasques, Hilton Fernandes e Jairo Pimentel avaliam que a acentuada desidratação dos candidatos menores alimentou um forte movimento de "voto estratégico" (ou voto útil) concentrado nos dois líderes da disputa. Isso torna o avanço para o segundo turno o desfecho mais provável, embora pequenas oscilações demográficas de última hora possam surpreender – confira a íntegra dos analistas neste vídeo.
A consolidação da disputa mostra uma eleição profundamente cristalizada na dinâmica da rejeição mútua, onde Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados numericamente com 45% de rejeição cada um. De acordo com Beto Vasques, coordenador do Labop, o comportamento do eleitorado se assemelha muito mais a uma prorrogação do pleito anterior do que a uma corrida presidencial tradicional. "Nós estamos diante de um terceiro turno de 2022. Nós não estamos com uma eleição de primeiro turno clássica desde o começo do ano. Desde o começo do ano, os dois primeiros candidatos já têm a maioria dos votos", analisa Vasques, indicando um tênue favoritismo numérico ao presidente Lula, que oscilou para 48% contra 45% do senador na simulação de segundo turno, mantendo o quadro de empate técnico rigoroso.
A rápida redução dos eleitores indefinidos na intenção de voto espontânea — que despencaram de 44% em março para apenas 13% na véspera da votação (uma queda de 31 pontos percentuais) — não se traduziu em vantagem isolada para nenhuma das duas principais forças. No levantamento espontâneo, Lula cresceu de 25% para 39% (alta de 14 pontos), enquanto a soma de Jair e Flávio Bolsonaro saltou de 15% para 35% (alta de 20 pontos).
Jairo Pimentel, cientista político do laboratório, destaca que o sprint final esvaziou candidaturas alternativas de centro-direita e direita, distribuindo os apoios de forma homogênea entre a liderança. Ele cita o exemplo de Augusto Curi, que chegou a pontuar 8% e desidratou para 4%, além de quedas de candidatos como Ronaldo Caiado (de 4% para 3%) e Renan. Pimentel adverte, contudo, que o equilíbrio captado nas pesquisas esconde um cenário real ainda mais acirrado. "Acredito que o cenário é muito mais apertado do que realmente a pesquisa está mostrando. Minha previsão é de que o empate vai ser algo real nesse primeiro turno, numa diferença de milhares de votos, talvez, ou poucos milhões de votos".
O cientista político Hilton Fernandes explica que fatores extraestatísticos de última hora ganham peso decisivo nesse ambiente altamente polarizado entre os candidatos, refletido até mesmo nos índices de avaliação de governo do Datafolha, que apontam 49% de desapreciação e 48% de aprovação para a gestão atual. "Esse sentimento de que não dá mais para o meu candidato ganhar pode criar uma certa ansiedade no eleitor e levar a uma mudança maior ainda. Temos também o efeito de grupos sociais que costuma acontecer nos finais de semana de eleição, especialmente os religiosos e familiares, que influenciam a decisão no último momento e que a pesquisa não pega".
O desfecho do fim de semana dependerá crucialmente de duas variáveis silenciosas: o comportamento dos "eleitores pendulares" (aqueles que flutuam entre o voto e a abstenção por desejarem mudança, mas temerem o risco) e o perfil demográfico, geográfico e motivacional da abstenção, dizem os especialistas da FESPSP. Fatores como o desconhecimento do número nas urnas por parte dos eleitores de candidatos nanicos — onde apenas 15% dos eleitores de Caiado, por exemplo, sabem o seu dígito correto — podem inflar artificialmente os votos válidos dos líderes por meio de votos nulos acidentais, já que Lula e Flávio são os únicos que superam os 80% de conhecimento do número.
O perfil das abstenções também deve pesar nesse cenário. A menor abstenção feminina historicamente favorece a candidatura de Lula — segmento no qual o presidente abre 10% de vantagem sobre o adversário —, enquanto a maior abstenção tradicional entre idosos (acima de 60 anos) e populações de menor renda e escolaridade afeta negativamente seu desempenho nas urnas, tensionando a corda do equilíbrio entre o incumbente e o senador até o último minuto de apuração.
A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (1º/10) entrevistou 2.506 pessoas presencialmente, com idade de 16 anos ou mais, em 152 municípios do país, entre os dias 29 de setembro e 1º de outubro de 2026. Contratada pela Globo e pelo jornal Folha de S.Paulo, a sondagem eleitoral tem margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, nível de confiança de 95% e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-08039/2026.
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