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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026

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Democracia Sequestrada. Por Lia Sérgia Marcondes

Cafézin do Fim do Mundo

Democracia Sequestrada. Por Lia Sérgia Marcondes
Imagem: Trumpígula/Criada com IA.
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Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.

Autoentitulado “Xerife das Américas”, os EUA atacaram novamente e sequestraram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Alguém aí estava com saudades da Doutrina Monroe? Não? Ninguém? Pois é. Parece que o presidente Cheetus estava.

Segundo ele, agora vivemos sob a Doutrina “Don-roe”. A autoestima deste senhor é realmente algo a se estudar: obedece ou apanha. Não há mais verniz diplomático, só a velha lógica imperial dita em voz alta.

Vai ver os pais o criaram assim, o que explicaria muita coisa. O mundo agora tem que lidar com um moleque mimado, lunático, com uma obsessão caligulesca pelo resto do planeta. Seu Fred e dona Mary, se estiverem acompanhando tudo isso daí de baixo, saibam que mandaram muito mal. Que filhinho bosta vocês largaram no mundo!

Enfim. Desabafado o meu inegável ranço contra o ditador plutocrático estadunidense, voltei, meu povo. E como sou uma quase otimista, digo assim mesmo: feliz 2026. Então pega tua xícara de café quentinho e vamos falar mais um cadinho do Laranjão, além de analisar o que os políticos daqui andaram aprontando na última semana do ano passado.

RECESSO ANIMADO

Na última semana de 2025, aquele momento mágico em que o Brasil teoricamente entra em recesso, a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal trabalharam mais que manicure em semana de Natal. Viram a fuga do Silvinei Vasques? O sujeito rompeu tornozeleira, atravessou fronteira e foi parar no Paraguai. O que ele pensou? Que golpista condenado pode tirar férias? Ah, tá!

A prisão do ex-chefe da PRF funcionou como aquele dominó mal colocado. Caiu um, caiu o resto. Resultado: dez mandados de prisão domiciliar cumpridos em oito estados e no DF contra condenados da trama golpista de 2023. Todo mundo agora em casa, monitorado, sem passaporte, sem rede social e sem contato entre comparsas. Uma espécie de Big Brother versão STF, só que sem prêmio e com tornozeleira.

Miraram no Ramagem, acertaram na Zambelli, e o recado ficou cristalino: Papai Noel não dá presente pra golpista. Quando o Estado resolve funcionar, funciona até no recesso. Feliz Ano Novo, golpistas. A democracia passou na virada!

BRIGUEM, DESGRAÇADOS, BRIGUEM!

Quem aí acompanhou a treta de fim de ano entre Eduardo Paes e Anthony Garotinho? Não tinha nenhum inocente, mas teve espetáculo. Garotinho decidiu ressurgir das catacumbas dos politicamente mortos, para anunciar uma série de “denúncias” contra o prefeito do Rio e seu irmão, Guilherme Paes, sócio do BTG Pactual. Provas? Até onde se sabe, nenhuma. Mas vai ver ele tem convicção...

Paes, que não é exatamente conhecido por oferecer a outra face, respondeu no mesmo tom e sem filtro, chamando o ex-governador de “vagabundo presidiário”. Cinco vezes, para não restar dúvida. De quebra, ainda sobrou comentário sobre o filho de Garotinho, prefeito de Campos, depois convenientemente apagado (mas o print é eterno). Obrigada, internet! Garotinho, claro, surfou no caos, fez pose de vítima, corrigiu a própria gramática depois do erro e avisou que o “nervosismo” do prefeito estaria entregando tudo. Clássico.

No fim, a cena é didática: um ex-governador condenado falando em moralidade administrativa, um prefeito experiente batendo boca em rede social, e o Rio assistindo a mais um capítulo da sua novela política favorita. Nessa briga, aviso logo: estou do lado da treta. Porque quando Garotinho resolve posar de paladino anticorrupção, o mínimo que a democracia pode fazer é rir alto e pedir bis.

QUEM QUER SER UM BILIONÁRIO?

Enquanto o povo se empolgava com a Mega da Virada, sonhando com o inédito prêmio de R$ 1 bilhão, teve quem não precisou nem conferir o bilhete. Na semana do Natal, o governo federal distribuiu R$ 1,5 bilhão em emendas parlamentares, tudo certinho, via Orçamento, sem fila na lotérica e sem chance de azar. Um Papai Noel institucional, com barba feita no Congresso e saco cheio de verba pública.

As emendas, esse mecanismo delicado que transforma deputado em gerente de caixa eletrônico, seguem crescendo feito fermento. Só em 2025, já foram R$ 30,2 bilhões pagos, com direito a emendas obrigatórias, facultativas e aquela opacidade criativa que faz o Supremo Tribunal Federal puxar o freio de vez em quando, lembrando que transparência não é item opcional do orçamento. Ainda assim, na semana do Natal, o Pix caiu bonito: bancadas, comissões e emendas individuais fizeram a festa.

Moral da história: enquanto a população aposta na sorte, o Congresso aposta no calendário. E ganha sempre. A Mega da Virada é promessa. As emendas são garantia. No Brasil, o verdadeiro prêmio acumulado não sai no sorteio da Caixa. Sai no Diário Oficial, com assinatura, carimbo e espírito natalino permanente. E nem sempre a gente sabe quem vai ver a cor desse prêmio... Se calhar, o jornalista Cleber Lourenço, tem razão em seu apelo: “Acabem com as emendas antes que elas acabem com o Brasil!”

NA VOLTA A GENTE COMPRA

Enquanto o brasileiro ainda se recuperava da ressaca, Lula começou o ano lembrando que sua caneta também serve pra dizer não. O presidente abriu 2026 sancionando o Orçamento com 26 vetos, incluindo o aumento do Fundo Partidário. Poético! Nada de reajuste automático para os partidos, apesar do choro organizado do Congresso Inimigo do Povo. Também ficaram barrados os “restos a pagar” de 2019 a 2023, aquela tentativa nada discreta de ressuscitar verba velha como se fosse um décimo terceiro atrasado.

O contraste é didático: para os partidos, contenção; para a dívida pública, quase R$ 1,8 trilhão em juros, pagos religiosamente, sem drama e sem veto. O Orçamento prevê superávit, salário mínimo corrigido e um PAC com limite de investimento, mas as emendas ainda seguem robustas, firmes e fortes.

E o saldo final foi: um governo que tenta ser responsável, um Congresso que choraminga por perder um “mimo”, e um sistema que continuou igual. 

XANDÃO ESTACIONOU NO LEBLON

No Brasil, basta um banco quebrar que o “jornalismo de cochicho” entra em ação. O caso do Banco Master saiu da esfera técnica direto para o teatro: a insinuação virou manchete, a fonte anônima ganhou status de oráculo e a prova material ficou pra depois (Se der!). A liquidação decidida pelo Banco Central virou detalhe inconveniente diante do prazer nacional de acusar primeiro e perguntar nunca. A Lava Jato pode ter acabado no papel, mas fez escola, agora com perfume de bastidor financeiro e indignação seletiva.

Como bônus, o pacote veio com ataque direto ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes, tratado como vilão preventivo por gente que só acredita em presunção de inocência quando convém. Diretor da PF nega, Banco Central nega, ministro do Supremo nega, e ainda assim a narrativa insiste. Afinal, nada atrapalha tanto uma boa suspeita quanto os fatos comprovados.

No fim, o banco é só o figurante. O esporte mesmo é tentar desgastar as instituições e ver até onde dá pra empurrar o caos antes que alguém chame isso de democracia. No Brasil, linchamento midiático segue sendo hobby de fim de ano.

VAI FICAR DE MIMIMI ATÉ QUANDO?

E por falar em Xandão, o inimigo do drama, o ministro segue firme na sua cruzada favorita: frustrar o teatro bolsonarista. A defesa pediu prisão domiciliar “humanitária” para Jair Bolsonaro, com aquele pacote clássico de laudos, pós-operatório, soluços e comoção calculada. Moraes respondeu com a frieza que virou sua marca registrada: não tem fato novo, o paciente melhorou, e a Polícia Federal oferece médico 24h, remédio, fisioterapeuta e até marmita da família. Alta médica concedida, drama encerrado, e o Inelegível Sem Anistia já está de volta na PF. Qual será o próximo pedido?

Do lado de fora do cercadinho, a realidade insiste em ser inconveniente. Uma pesquisa da Genial/Quaest mostrou que a maioria dos brasileiros acha que a prisão é consequência direta dos atos do próprio Bolsonaro. A tese da “perseguição do STF” sobrevive basicamente onde sempre sobreviveu: dentro da bolha. Para o resto do país, parece estar claro que tornozeleira não é item fashion, sentença não é opinião e hospital não virou bunker jurídico.

No fim, Xandão não persegue ninguém. Só tem o péssimo hábito de aplicar a lei. E isso, convenhamos, continua sendo o maior escândalo para quem passou anos achando que era imune a ela.

XADREZ DE DITADOR

A captura de Nicolás Maduro pelos EUA não tem absolutamente nada de “altruísmo democrático”. O que está em jogo é o controle do sistema que decide em que moeda, em que circuito e sob quais regras a energia mundial circula.

Desde o fim do padrão-ouro, o dólar se sustentou ancorado no petróleo. Quem vende energia fora desse circuito mexe na engrenagem central do império. E foi exatamente o que a Venezuela fez: comercializou fora do dólar, flertou com rublos e yuans, criou a cripto PETRO lastreada em reservas reais e ainda se aproximou do BRICS.

O resultado foi o padrão histórico sendo repetido: quando o sistema é ameaçado, a Doutrina Monroe sai da gaveta. Não é sobre Maduro. Não é sobre a democracia livre para o povo venezuelano. É sobre manter o tabuleiro exatamente como está, A TODO CUSTO.

Foto: Reuters

IMPÉRIO EM MODO ECONOMIA DE ENERGIA

No fundo, a pressa toda em tomar posse das reservas venezuelanas tem nome e data de validade: a transição energética, que já avança no resto do mundo, enquanto o petróleo está perdendo a centralidade como principal recurso. É medo de obsolescência.

O velho arranjo que sustentou o poder estadunidense por décadas começou a ranger, e Trumpígula viu seu império ameaçado. E quando um império passa a agir como quem sabe que o tempo virou contra ele, o barulho aumenta. O problema é que, historicamente, impérios em declínio não caem em silêncio. Tentam levar o mundo junto.

Cartoon: Vasco Gargalo (Instagram: @vascogargalo)

THE BOYZ

Nada disso que está acontecendo vai transformar o Maduro em um democrata tardio, nem apagar a repressão interna na Venezuela. Mas também não transforma intervenção militar em método legítimo. Criticar autoritarismo não obriga ninguém a aplaudir sequestro internacional, extradição à força ou ocupação disfarçada de “operação legal”. O método importa. E o método do Capitão Pátria Laranja costuma vir acompanhado de instabilidade, tutela externa e democracia em versão beta. (Quando vem!)

Um pós-Maduro, sob a ameaça dos EUA, aponta para o roteiro conhecido: repressão interna, jornalistas presos, estado de exceção, disputa de poder dentro do chavismo e uma oposição dividida entre oportunismo e dependência externa. Uma transição Frankenstein, sem legitimidade e sem soberania real.

A democracia continua sequestrada. Só mudou o sequestrador. Agora ele usa gravata, fala em segurança regional e cobra a conta em dólar.

DE HOJE EM DIANTE, SÓ QUERO BOAS NOTÍCIAS

Nem tudo é golpe, império e pilantragem... Depois de todo o escândalo do roubo aos aposentados e pensionistas do INSS, o governo fechou o balanço de 2025 com a devolução de R$ 2,8 bilhões aos lesados pelo esquema fraudulento. Mais de 4,1 milhões de pessoas contestaram. Em mais de seis milhões de casos analisados, a imensa maioria disse o óbvio: não, eu não assinei isso.

Não está tudo resolvido ainda, mas já é uma reparação justa, enquanto decorrem as investigações e processos para punir os envolvidos neste golpe (assim espero). Num país acostumado a empurrar aposentado pra fila do esquecimento, ver dinheiro voltar ao bolso de quem vive de benefício mínimo já é animador.

E que 2026 traga mais disso: menos discursos vazios, mais ação real e muita justiça aplicada como se deve.

E por hoje é só, minha gente. Neste país da piada pronta, continuo servindo seu cafézim com uma colherinha de sarcasmo e pitadas de bom humor. Porque aqui a caneca é extra grande e o café é extra forte, já que 2026 não me parece que vai colaborar muito...

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