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Sabado, 18 de Abril de 2026

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Exclusivo: Doações para a campanha de Pazuello incluem a de um ex-assessor que foi preso acusado de estupro

Reportagem da Folha Democrata

Exclusivo: Doações para a campanha de Pazuello incluem a de um ex-assessor que foi preso acusado de estupro
Foto: Reprodução/Flickr/Senado
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Por Pedro Zambarda, editor da Folha Democrata.

O site da Folha Democrata inaugurou suas atividades em junho de 2023 com uma reportagem sobre o assessor que conecta o coronel Elcio Franco ao general e hoje deputado federal Eduardo Pazuello: Paulo Cesar Ferreira Júnior. A FD mantém contato com diferentes fontes militares.

Essas pessoas pediram para olhar, com cuidado, as contas eleitorais do general que foi o segundo deputado federal mais bem votado no Rio de Janeiro: 205.324 votos.

Pazuello recebeu recursos para campanha de R$ 1.064.077,63, dentro de um limite de R$ 3.176.572,53 para gastos. Do montante, ele gastou R$ 944.065,37.

Entre as doações, destacam-se os nomes do empresário Airton Antonio Soligo (R$ 5 mil), o médico Mauro Henry Botner (R$ 8 mil), um amigo do Rio chamado Plinio Camara Barbosa Cordeiro (R$ 500) e o militar Thiago Grance Rangel (que doou só R$ 1).

O coronel da reserva George Divério também fez uma doação ao general que não está contabilizada nas contas oficiais, segundo nossas fontes. Ele foi superintendente do ministério da Saúde de Rio de Janeiro até ser exonerado em maio de 2021. Na época, o Jornal Nacional da Rede Globo divulgou que Divério aprovou contratos suspeitos para reformar prédios administrativos durante a pandemia.

São amigos de Eduardo Pazuello nos círculos sociais e um deles tem acusações pesadas de crimes nas costas.

“O ministro da Saúde de fato”

Apurando o caso com fontes próximas desde a metade de 2021, o DCM publicou que o assessor Airton Cascavel era descrito como “ministro da Saúde de fato” na gestão Eduardo Pazuello no governo Bolsonaro, expressão que apareceu primeiro na revista Veja.

Segundo informações enviadas pela Lei de Acesso à Informação (LAI), Cascavel estava presente na equipe de Pazuello desde a posse em 16 de setembro de 2020 junto com enrolados no esquema de vacinação apurado na CPI da Covid. Os dois se conheceram na Operação Acolhida, com refugiados venezuelanos no norte do Brasil. Pazuello e Cascavel foram colocados no governo pelo general Luiz Eduardo Ramos, que foi da Secretaria-Geral e da Casa Civil de Bolsonaro.

O assessor de Pazuello nasceu em 4 de maio de 1964, ano do golpe militar. O apelido, Cascavel, provoca medo e intimidação em quem conhece as histórias no norte do Brasil – além das acusações de grilagem e nepotismo.

Primeira reportagem a conectar Cascavel com Pazuello foi publicada no dia 7 de de janeiro de 2021 pelo jornalista Lúcio de Castro no site Sportlight. “A teia do general” mostra o “homem forte” do ex-ministro da Saúde denunciado por tentativa de desvio de, acredite se quiser, vacinação.

Em 1989, quando era prefeito de Mucajaí, em Roraima, Cascavel foi acusado de corrupção ativa por subornar o delegado da agricultura de Roraima envolvido na campanha de vacinação da febre aftosa no interior do estado, como está na denúncia do MPF-RR. A denúncia consta no inquérito de número 1.067 no Ministério Público daquele estado.

Cascavel renunciou do cargo de prefeito em 1990 e depois se tornou deputado estadual e continuou sua carreira política, mesmo com as acusações e as mudanças de foro relacionadas ao processo. Foi vice-governador em 1995 e tornou-se deputado federal em 1998.

No mesmo texto do site Sportlight, Airton Soligo Cascavel aparece em acusações de grilagem de 2012, identificadas pelo MP, com Rodrigo Jucá, filho do ex-senador Romero Jucá.

No início de junho de 2020, a bancada do PT encaminhou o “requerimento de informação nº 713”, no qual, entre sete questionamentos, diz existirem informações de que “o sr.  Airton  Soligo  teria,  inclusive, ramal  telefônico  nas  dependências  do Ministério  da  Saúde”.

Os parlamentares questionam: “onde  ele  está  alocado?  O  Sr.  Airton  Soligo  possui  acesso  aos  sistemas  do Ministério  da  Saúde,  com  login  e  senha?  Se  sim,  de  quais  sistemas?  De  quem  partiu  a  ordem de autorização de acesso a uma pessoa que não é servidor ou possui relação com o ministério?”. As perguntas intensificam a pressão em Airton Soligo Cascavel, que é nomeado na pasta.

No dia 24 de junho, Cascavel ganhou o cargo de “assessor especial”,  com código DAS-102/5 publicado no Diário Oficial da União (DOU). Em 14 de dezembro de 2020, Airton Soligo foi o representante de Pazuello e Bolsonaro para falar sobre a compra da Coronavac junto ao governo Doria.

Airton Cascavel foi pessoalmente conversar com o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, reduzindo a temperatura dos constantes atritos entre Doria e Bolsonaro.

O ex-deputado Alexandre Frota disse a este repórter que chegou a consultar Pazuello para solicitar auxílio na pandemia. O ministro encaminhou o contato de Airton Cascavel.

Cascavel era, portanto, um “faz-tudo” de Pazuello na gestão desastrada da Saúde e na crise da covid e da falta de oxigênio em Manaus.

Em 23 de março de 2021, Pazuello foi exonerado do cargo de ministro e assumiu o médico cardiologista Marcelo Queiroga. Ele tirou o homem de Eduardo Pazuello do governo.

Mas Cascavel não ficou sem emprego. O governo do bolsonarista Antonio Denarium, de Roraima, nomeou Airton Soligo como secretário de Saúde do estado.

Airton Cascavel tem trânsito forte nos bastidores da política do Amazonas e de Roraima. E essas amizades passam pelos meios de comunicação. Um de seus amigos era o empresário Otávio Raman Neves.

Otávio era o proprietário da TV Norte Amazonas, afiliada do SBT, e faleceu de covid no dia 6 de julho de 2021. Uma reportagem do DCM, dois dias antes, apontou uma conexão entre a afiliada do SBT e a Precisa Medicamentos. 

Gustavo Oliveira, representante da Precisa, é genro de Daniel Abravanel. Ele é casado com Priscila Abravanel. Daniel é um sobrinho de Senor Abravanel, Silvio Santos, o dono do SBT. Trabalha com as afiliadas da emissora e é filho de Henrique Abravanel, o irmão caçula de Silvio.

Gustavo é próximo também de Danilo Berndt Trento, chamado de “sócio oculto” da Precisa Medicamentos e que chegou a viajar com Flávio Bolsonaro.

Nessa teia de relacionamentos, o falecido Otávio Raman, amigo de Cascavel, era próximo do senador Omar Aziz, o presidente da CPI da Covid. Ele falou sobre o “irmão-amigo” no dia de sua morte na CPI: Aziz manteve uma relação de 40 anos com Otávio.

O mesmo Omar Aziz que mandou prender o ex-secretário Roberto Dias, do Ministério da Saúde, no caso Davati, mas não fez nada com Pazuello e nem com Cascavel na CPI.

Antes do governo Bolsonaro acabar, já exonerado do cargo de ministro e atuando como secretário de Estudos Estratégicos, Pazuello circulou pela capital usando um carro T-Cross, da Volkswagen, de placa REF5D36.

Quem é o proprietário do veículo? Airton Antonio Soligo, o Cascavel. A informação bateu com dados do próprio Cascavel no Diário Oficial de Roraima.

E esse assessor tem acusações pesadas nas costas.

Acusações de estupro, um deles envolvendo sua própria família

Cascavel tem acusações de estupro na Justiça, além de compra de votos. Na época que era secretário estadual de Saúde de Roraima, após passar pelo ministério da Saúde de Pazuello, eles já estavam respondendo a um inquérito policial instaurado em janeiro de 2019 por suspeita de estuprar uma adolescente que, à época, tinha 13 anos.

Esse crime, de acordo com a denúncia da vítima, ocorreu numa chácara localizada no Monte Cristo, zona rural de Boa Vista. O caso foi informado à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) pela mãe da garota. No depoimento, a adolescente relatou que estava na chácara onde moram o avô e o pai. Ao acordar, se dirigiu à piscina, a 200 metros da casa, para usar a internet pelo celular, quando foi abordada pelo suspeito.

Ao notar que a garota estava com os “lábios manchados”, Cascavel, ainda segundo relatos da vítima, quis saber o que havia acontecido e passou os dedos em seus lábios. Ela explicou que a mancha foi causada pela exposição ao sol após “chupar limão com sal”. 

Ainda conforme o depoimento da adolescente, após responder a Airton Cascavel, ele segurou o seu queixo e passou a língua em seus lábios. Assustada, ela se afastou e perguntou se ele estava “doido”.

Caso que veio à tona em setembro de 2021, Airton Cascavel também foi investigado por suspeita de abusar sexualmente da própria neta. Um boletim de ocorrência foi registrado no dia 15 daquele mês e a mãe da criança alega que o crime teria ocorrido entre os dias 12 e 13.

A criança havia ido visitar a casa do pai e do avô paterno. Ao voltar para casa, a criança relatou dores na região íntima. Questionada sobre o que ocorreu, ela contou que o avô, Cascavel, pegou na região e a machucou. A mãe “suspeita que sua filha tenha sofrido abuso sexual por parte do avô paterno”, diz trecho do documento.

Por conta das dores, a criança foi levada ao Hospital da Criança Santo Antônio (HCSA) para atendimento médico. O caso foi parar no Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente da Polícia Civil de Roraima. Ele se tornou réu em 23 de setembro daquele ano.

Cascavel foi preso em 8 de fevereiro de 2022 em Roraima, acusado de estuprar uma jovem de 17 anos. De acordo com as investigações, o abuso sexual teria sido praticado na casa da mãe do suspeito, Airton Cascavel, na cidade de Joinville, em Santa Catarina. A vítima seria uma adolescente que trabalhava cuidando da proprietária da residência.

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina aceitou o pedido de habeas corpus da defesa do empresário Airton Cascavel e o soltou três dias depois.

Segundo o desembargador relator do caso, Antonio Zoldan da Veiga, no pedido de prisão preventiva do acusado há “clara ausência de cautelaridade, uma vez que ainda que se considere a gravidade do crime imputado e a repercussão do caso, não há provas nos autos de que, em quase cinco anos, o paciente [Airton Cascavel] tenha agido para novamente constranger a vítima”.

No pedido de habeas corpus, a defesa sustentou que Cascavel “sofre sérios problemas de saúde, que poderiam se agravar fatalmente diante da insalubridade do ambiente prisional”.

Conhecido nos bastidores, Airton Cascavel parece ter uma blindagem no meio político no norte do Brasil. No entanto, as fontes consultadas pela FD acreditam que ele ainda pode ser preso. 

As acusações envolvendo o ex-assessor de Pazuello foram apuradas pelo portal O Poder, que cobre Amazonas e Roraima.

Assessor próximo de Elcio Franco permanece trabalhando com Pazuello

A Folha Democrata apurou que o assessor Paulo Cesar Ferreira Júnior continua trabalhando normalmente no gabinete do deputado Eduardo Pazuello. Ele é apontado por fontes nossas como a pessoa que pagou contas pessoais de Elcio Franco e do próprio Pazuello.

Paulo Cesar ganha R$ 16.640,22 no cargo público de secretário parlamentar. Com os descontos, ele recebe mensalmente R$ 13.861,43 e um auxílio de R$ 1.331,59.

Pazuello já teve 20 pessoas trabalhando em seu gabinete, promoveu algumas e exonerou outras. Agora há 17 pessoas com o deputado que foi ministro da Saúde de Bolsonaro no pior momento da pandemia.

Leia a série de reportagens da FD sobre Pazuello e seu entorno

EXCLUSIVO: QUEM É O ASSESSOR QUE CONECTA PAZUELLO AO CORONEL ELCIO FRANCO, DEMITIDO PELO GOVERNO LULA

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