Por Pedro Zambarda, editor.
Lula, os dois livros, volumes 1 e 2, é o tipo de leitura que me fez mergulhar tanto no trabalho que faço já em política quanto na história do próprio Brasil. No primeiro livro, Fernando Morais tem a proeza de iniciar com a prisão injusta decretada por Sergio Moro - ocasião em que este repórter acompanhou o presidente se entregando no Sindicato dos Metalúrgicos.
A história começa acelerada, tensa, sufocante e faz um retorno, muito mais ameno, para Luiz Inácio Lula da Silva sindicalista.
Nesse sentido, o volume 2 é um pouco mais burocrático e é o livro mais realista sobre o presidente que venceu três eleições para presidente. Morais reconstroi, com detalhes, o almoço na sede da Folha de S.Paulo em que Otávio Frias Filho. Otavinho não só perguntou como Lula pretendia ser presidente sem saber falar inglês. Isso o presidente "engoliu em seco". Luiz Inácio Lula da Silva perdeu a cabeça quando o falecido dono da Folha o perguntou sobre a aliança com Paulo Maluf.
Fernando Morais explica que Lula detestou derrotas presidenciais e quase desistiu da política após 1989. Foi convencido por Fidel Castro, o líder mais reconhecido da Revolução Cubana, que sua votação enquanto trabalhador vindo da causa operária o obrigava a tentar até conseguir. E Morais desmonta o mito do "Lula do Antigo Testamento". Para o biógrafo, Lula sempre foi um negociador, um moderado, e isso é a sua tradição sindical. Sempre enxergou José Genoino como um dos "radicais do PT".
O escritor também conta a tentativa de construção da chapa Tasso Jereissati, do PSDB, com Lula, arruinada pela ascensão de Fernando Henrique Cardoso com o sucesso do Plano Real.
Na página 296, o autor esclarece que o presidente se aproximou até de militares para estabelecer a aliança vitoriosa de 2002 e 2003. Escreve Morais:
Em 2022, ironicamente, o general Oliva (pai de Mercadante) se converteria no oráculo do presidente Lula para a montagem do seu primeiro ministério militar. O batismo do filho como vice de Lula se daria num grande comício realizado em Belo Horizonte. Logo no começo Mercadante entendeu que não podia repetir o que o PT vinha fazendo - atacar o Real frontalmente, tachando-o de eleitoreiro e recessivo. Fazer isso era bater de frente com a opinião pública, que já percebera o fim da inflação e se orgulhava de ter uma moeda que valia um dólar.
Uma pena que, no terceiro volume de sua trilogia, Fernando Morais vai encerrar a biografia de Lula no momento de sua vitória contra Jair Messias Bolsonaro, em 2022, após a pandemia da covid e sua prisão injusta. A história do presidente não é a história de um político progressista, do melhor líder que este país teve. A história de Lula é sobre o Brasil.
É sobre a esquerda possível no Brasil.
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