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Segunda-feira, 20 de Abril de 2026

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O apelo do Jair. Por Prof. Viaro

Uma reflexão de Natal

O apelo do Jair. Por Prof. Viaro
'Deus escolheu as coisas vis': Jair Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia em 2018 — Foto: Domingos Peixoto/30-10-2018/Reprodução/O Globo
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A “Carta aos brasileiros”, de Jair Bolsonaro, foi uma convocação aos cristãos de toda ordem. Tenho falado, por diversas vezes, da necessidade de o campo progressista adquirir “letramento evangélico” para que seja possível a aproximação por meio do diálogo.

Quando não se tem tal letramento - que consiste em dominar o evangeliquês antes mesmo de adquirir conhecimento bíblico básico - as informações discursivas acabam passando despercebidas. Bolsonaro comunica-se com quem “tem fé” em uma forma de súplica e de endosso ao seu primogênito.

Em sua carta, Bolsonaro usou e abusou de passagens bíblicas, implícita e explicitamente, como forma de apelar aos cristãos em pleno dia de Natal. A escolha da data não é aleatória, mas estratégica: o vinte e cinco de dezembro cria uma atmosfera positiva, colocando cristãos em posição de fragilidade emocional.

Quando Bolsonaro diz: “entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho para a missão de resgatar o nosso Brasil”, a citação de João 3:16 é quase literal. Diz a passagem: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” 

Mais do que a identificação de Flávio como o “filho escolhido”, Jair se coloca na posição de Deus. Na sequência, afirma que Flávio é “'a continuidade' do caminho da prosperidade 'que iniciei', mesmo antes de ser presidente, pois acredito que precisamos 'retomar' a responsabilidade de conduzir o Brasil". 

Os termos “continuidade”, “iniciei” e “retomar” podem ser vistos como diretamente ligados a João 15:4: “Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Como o ramo não pode produzir fruto por si mesmo se não estiver na videira, assim vocês também não podem, se não permanecerem em mim.”

O “permanecerem em mim” relaciona-se ao fato de Flávio ser a “continuação” de Jair. Sem falar, é claro, que a autodefinição como Deus faz de Jair o personagem de João 10:10: “O ladrão vem para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” Ou seja, o “ladrão”, diversas vezes associado por bolsonaristas a Lula da Silva, é o inimigo da vida - solucionada apenas na presença (e crença) em Deus ou, melhor, em Jair.

Por mais que essa última passagem necessite de interpretação mais densa, é mister destacar que o bolsonarismo divide a nação brasileira em “povo de bem” e “os outros”, e, para isso, a presença do líder messiânico se faz fundamental. 

A interpretação torna-se mais fácil quando o público está habituado ao evangeliquês e, sobretudo, no dia de Natal. Bolsonaro não fez uma carta aberta aos brasileiros, assim como Michelle, na véspera de Natal e no mesmo horário do pronunciamento de Lula, falou apenas aos evangélicos - colocando Bolsonaro em sua própria Via Crucis.

Por fim, Flávio lançou a pré-candidatura participando semanalmente de cultos e tratando as eleições de 2026 como uma espécie de “batalha espiritual”. Tudo orquestrado. 

O bolsonarismo apela para a fé - embora Malafaia não endosse a candidatura de Flávio. Mas isso é um problema que se resolve no campo político, visto que Silas deixou, há muito, de ser um líder religioso.

Adriano Viaro

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