Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.
Essa temporada do BBB – Edição STF está melhor do que a encomenda. O roteirista do Brasil sempre nos surpreende. Vejam bem... Nenhum discípulo do mito poderia imaginar, nem em seus mais loucos devaneios, que veria o seu “mito” encolhido, falando manso diante do Xandão.
Acho que todos do campo progressista foram injustos com a Regina Duarte. Vejam bem... Afinal, era mesmo o “pum do palhaço”. E o palhaço agora está no banco dos réus e chama Alexandre de Moraes de “meu ministro” e seus seguidores de “bando de malucos”. Nunca o termo “patriOTÁRIO” fez tanto sentido!
Mas vamos por partes. Vamos espiar como foi essa última semana...

O AMOR ESTÁ NO AR... E TEM CHEIRO DE IMPUNIDADE
Aproveitando o clima de romance da semana dos namorados, o presidente da CCJ, Hugo Motta, resolveu dar um mimo bem carinhoso para sua colega de Parlamento, a deputada-pistoleira Carla Zambelli. E não, não foi um buquê de flores, mas um buquê de burocracia processual.
O negócio é que ele tinha decidido que o STF era pra ser respeitado, e que a perda de mandato da condenada deveria ser automática. Depois, meteu ali um papinho de que ia rolar uma votação. Maaasss... no Dia do Namorados, Motta oficializou o recuo, enviou a tal ordem de perda de mandato do STF para a CCJ, onde haverá prazo para a defesa, o parecer e só depois a votação em plenário por maioria absoluta (257 votos).
É muita marmotagem... Itália, contamos com vocês, para acabar essa farra.
CONSIDERANDOS E AMNÉSIA COLETIVA
A primeira leva de depoimentos dos réus do 8 de janeiro no STF teve de tudo: enredo de novela ruim, atuação de teatro amador... uma fábrica de memes. Teve general que não sabia de nada, coronel que esqueceu como funcionava o telefone e até um comandante que achava “normal” blindar acampamento golpista com tanques. O golpe? Segundo eles, era coisa da mídia. Foram só uns “considerandos”, umas conversas de boteco entre amigos, nada muito sério. Aham, Cláudia...
A performance de Braga Netto foi a mais notável. Alternou entre a negação de fatos públicos e uma leve amnésia estratégica. Quando questionado se considerava democrático prender ministros do STF, respondeu com a serenidade de quem pede um café: “depende das circunstâncias”. O quarto cavaleiro do Apocalipse, que também atende pela alcunha de general Heleno, soltou um “não autorizaria” com cara de paisagem, como se não tivesse passado quatro anos soprando golpe no ouvido do chefe.
Enfim! Entre pausas para água, cochichos com advogados e declarações surreais, o julgamento mais parecia uma convenção de militares reformados da ARENA dos anos 70: saudosos da farda, traumatizados pelo voto popular e firmemente convencidos de que o golpe só seria golpe se desse certo. No fundo, parece que eles ainda estão naquele Brasil: tragicômico, institucionalizado e com cheiro de café requentado.

Imagem: Criada com IA, licenciada pela Shutterstock/Folha Democrata.
INELEGÍVEL, IMPRESTÁVEL E... INSOSSO
Demorou, mas chegou a vez de Jair Bolsonaro ficar cara a cara com Xandão. O futuro morador da Papuda confundiu as coisas e se sentou no banco dos réus como quem sobe em um palco de stand-up. O inelegível encenou um arremedo de defesa, que beirava o delírio místico: negou tudo, responsabilizou os outros e ainda tentou transformar o tribunal em circo. Só que o palhaço era ele mesmo...
Ele jurou que nunca quis golpe. Eram só umas “hipóteses constitucionais”, como prender o Alexandre de Moraes, mas quem liga? Nada demais, né? Eram só umas ideias bobas. A minuta do golpe era apenas “um rascunho não assinado”. Parece que até golpe tem rascunho. Deve ser aquele documento salvo como “Versão FINAL FINAL mesmo AGORA SÉRIO 3.docx”.
E como bom influencer da extrema-direita, Bolsonaro ainda deu um showzinho ao vivo: chamou os apoiadores de malucos, soltou piadinha, puxou risada, tentou puxar aplauso e ninguém correspondeu. Além de inelegível, insuportável e imprestável, ele também é insosso. Mas, com certeza, ele sai disso tudo muito maior… em número de inquéritos e desafetos.
FORRÓ ASSUSTADO
Foi por muito pouco que Gilson “Sanfoneiro” Machado, ex-ministro do Turismo de Bolsonaro, teve que trocar os palcos dos festejos juninos pelo “arraial da cadeia”. Preso em Recife no último dia 13, o ex-aspone do forró virou protagonista de uma ópera-bufa internacional: foi acusado de tentar intermediar um passaporte português pro queridinho do golpe, Mauro Cid, fugir discretamente do Brasil.
Lembrando que Gilson não é só ex-ministro. É também o ex-candidato flopado à prefeitura do Recife e criador oficial da vaquinha do Bolsonaro. Aquela dos R$ 17 milhões que, segundo o ex-presidente, com uns “pingados” virou R$ 18 milhões. Isso mesmo: foi ele quem lançou a campanha nas redes pedindo grana pro chefe pagar advogado, coxinha e a estadia do Dudu Bananinha nos States.
No fim, parece que Gilson se dedicou tanto à fuga alheia que esqueceu de providenciar a própria. Mas, por enquanto, foi só susto: Xandão revogou a prisão do sanfoneiro. Não que ele esteja livre. Ainda vai rolar muita água debaixo dessa ponte. Mas, pelo visto, não vai ser neste São João que a cadeia recifense vai ganhar forró ao vivo.
DE HOJE EM DIANTE, SÓ QUERO BOAS NOTÍCIAS...
Notícia boa a gente não só dá, a gente saboreia: o Superior Tribunal de Justiça manteve a condenação do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) por transfobia contra a deputada Duda Salabert. O reizinho do preconceito vai ter que desembolsar R$ 30 mil por ter dito, em 2020, que não reconhecia Duda como mulher porque, segundo ele, “é biologia”. É… e agora também é jurisprudência, querido.
A ministra Maria Isabel Galotti, do STJ, mandou o recurso de Nikolas pro arquivo e deixou claro: só se mexe em valor de indenização quando for exagerado ou ridiculamente baixo. E R$ 30 mil, segundo ela, está no grau certo da proporção entre o preconceito e o castigo. Palmas pra Justiça que, pelo menos dessa vez, não se fez de surda.
Lembrando que esse projeto de deputado já havia sido condenado a pagar R$ 200 mil por danos morais coletivos, depois daquele show de horrores transfóbico na tribuna da Câmara no Dia Internacional da Mulher. Parece que o moço vai precisar abrir uma vaquinha com Gilson Sanfoneiro ou parcelar o ódio em suaves prestações no carnê da homofobia!
E por hoje é só, minha gente! No país da piada pronta, a gente segue servindo cafezim forte, com uma colherinha de bom humor. Até porque, o fim do mundo pode até ser inevitável, mas manter a cabeça no lugar é ato político em terra arrasada.
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