Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.
Fingimos que fumos e vortemos, e com muita conversa para colocar em dia, depois de um Carnaval agitado (e nem é o de Momo). No Brasil, a folia institucional não tem data para acabar. Até as instituições que pareciam funcionar minimamente estão “batendo pino” no país.
O calendário eleitoral, por exemplo, agora é saboooor calendário. Com outdoor brotando em plena capital amazonense, tal e qual mato em terreno baldio, a campanha antecipada virou o esporte oficial de quem comete o crime e aponta o dedo pro adversário. O cinismo está lustrado, calibrado e pronto pra temporada. 2026 começou.
Recomendo um café forte hoje, pra gente esmiuçar os últimos eventos. Vem comigo!

AMOSTRA GRÁTIS
Tem um pessoal muito empolgado com as eleições de Outubro. Mas a empolgação é tanta, que não resistiram a já começar a campanha presidencial. É vídeo, é adesivo, é outdoor... Só faltou o jingle. Gente! Não chegamos nem nas festas juninas ainda!
Mas teve deputado que foi bater na porta do TSE contra Flávio Bolsonaro por campanha antes da campanha. A lei diz que a propaganda eleitoral só começa em agosto. Será que eles pensaram que isso era só uma sugestão? O curioso é que, quando é do lado da extrema-direita, é “manifestação espontânea”. Mas se fosse Lula, aí era crime eleitoral. Coerência seletiva é o esporte olímpico oficial dos bolsozentos.
Agora o TSE vai decidir se vai agir ou fazer cara de paisagem. Porque 2026 começou mesmo em ritmo acelerado. Segura a peruca!

Fotomontagem: Revista Cenarium
E NA SAPUCAÍ...
A homenagem a Lula na Sapucaí virou escândalo para quem só pensa na corrida eleitoral, com direito a muita gritaria raivosa e ameaça de ação no TSE. Nas redes sociais, vários juristas olharam, folhearam a lei e resumiram: não teve pedido de voto, não teve abuso, não teve crime. E o desfile da Acadêmicos de Niterói foi lindo, com muito samba e liberdade artística. Simples assim.
A verdade é que o enredo doeu. E doeu porque essa gente que só trabalha em prol do próprio bolso teve que ver o homem que já foi retirante, operário e sindicalista (e que hoje ocupa pela terceira vez o cargo mais alto da República) ter sua história contada na avenida e ser aplaudido de pé.
Carnaval no Brasil não é apenas uma festa. Tem resistência, alegria, memória e política misturadas no mesmo saco de confetes. No fim, seja no camarote, na Sapucaí ou no Galo da Madrugada, Lula demonstrou que aos 80 anos está com mais energia e disposição do que uma dúzia de deputados hidrofóbicos da extrema-direita. Vai, Lulinha!

Até o Bozo compareceu. (Foto: Alex Ferro/Riotour)
TODO CARNAVAL TEM SEU FIM
Enquanto o samba ecoava na avenida, nos bastidores a bateria da Justiça começou a esquentar pro lado de Cláudio Castro. O caso CEPERJ voltou ao radar e o processo pode finalmente entrar na pauta do TSE. E não veio sozinho.
A tal “engenharia criativa” com dinheiro da CEDAE (aqueles R$ 150 milhões que evaporaram na contabilidade política) voltou a assombrar o Palácio Guanabara. Quando a matemática dos políticos fica diferenciada, sempre sobra pro contribuinte pagar o abadá da folia deles.
Castro tentou sambar miudinho, fora do foco, mas o trio elétrico da Justiça não costuma desligar o som no meio do bloco. O Carnaval acabou, mas o processo não. Teremos mais um governador condenado no RJ? Vamos aguardar.
BLOCO MARCHA-LENTA
O Congresso voltou do Carnaval daquele jeitinho: com muito barulho e confete, mas pouca produtividade. O PL “antifacção”, que o governo queria empurrar como prioridade, virou mais um cabo de guerra entre Planalto e oposição e já travou a pauta da Câmara. Ninguém anda, ninguém vota, ninguém resolve. É Brasília em modo marcha-lenta.
E, pra esquentar o ambiente, já reapareceu o esporte favorito do Legislativo: CPI. Desta vez, os parlamentares articulam uma comissão para investigar suspeitas de irregularidades e uso político de estruturas públicas. Esperamos que não seja mais uma daquelas onde eles prometem “ir até o fim”, o que em Brasília costuma significar “até mudar o assunto”.
Entre projeto parado e CPI nascendo, o Congresso mostra que 2026 também já começou por lá. Com muito movimento, mas com bastante teatro. Haja café!
BIG BROTHER JUSTIÇA
Enquanto Brasília finge normalidade, a Receita Federal deu de cara com coisa séria: a quebra indevida de sigilo envolvendo dados de ministros do STF. A investigação aponta acesso irregular intencional dentro do próprio sistema. E há indícios de que um servidor público entregou informações sensíveis, abrindo uma trilha que liga vazamento, uso político e disputa de poder.
Não bastasse o absurdo da situação em si, ainda surgiram conexões com a chamada “Abin paralela”. Aquela lá da tentativa de golpe. Dados fiscais, acessos internos, monitoramento informal: tudo aquilo que não pode existir dentro do Estado Democrático de Direito, mas que insiste em aparecer quando a política resolve brincar de 007. Alguns servidores foram afastados, teve tornozeleira, e o escândalo passou do administrativo para o institucional.
Não se trata “só” de um vazamento. É a erosão das estruturas do Estado, que estão sendo usadas para bisbilhotar ministros, adversários ou qualquer outro alvo político. Quando isso acontece, a democracia deixa de ranger e começa a trincar. A investigação ainda corre, mas uma coisa já está clara: o problema não era teoria conspiratória. Era método. E método deixa rastro.
NOTA: DE REPÚDIO
Desta vez o tema não é disputa política. É indignação básica. Deputados acionaram a Procuradoria-Geral da República após uma decisão judicial que absolveu um adulto acusado de estuprar uma menina de 12 anos, sob o argumento de “vínculo afetivo” e suposto consentimento. Eu até teria palavras para descrever o que sinto em relação a este desembargador diante dessa notícia, mas nenhuma seria publicável.
O caso ficou ainda mais grave quando o relator descreveu a relação entre o homem adulto e a criança como “jovem casal”, tentando justificar a absolvição em nome de uma suposta “proteção da família”. Pela lei brasileira, relação sexual com menor de 14 anos é crime. Não existe consentimento, histórico ou narrativa que mude isso. Ponto. Isso aqui não é uma disputa entre ideologias políticas. É limite constitucional.
A Corregedoria cobrou explicações, e a reação política veio porque o precedente é perigoso: relativizar a proteção de crianças abre uma porta que a lei brasileira fechou há décadas. Não é só um julgamento. É um limite civilizatório. Criança não consente. Criança não casa. Criança não “forma família” com adulto. Se a Justiça começar a dobrar esse princípio, a sociedade inteira precisa reagir.
Fica o registro do meu repúdio. A República não se sustenta no grito, na ameaça ou na erosão silenciosa das regras. Sem respeito às instituições, não há política. Há caos e barbárie. E isso, meus caros, tem um preço que ninguém vai querer pagar.
DE HOJE EM DIANTE, SÓ QUERO BOAS NOTÍCIAS
No meio de tanta confusão institucional, uma boa notícia para acalmar o coração. O ministro Flávio Dino proibiu a criação de novas leis que permitam remuneração acima do teto constitucional. Traduzindo: chega de penduricalho criativo para turbinar contracheque no serviço público. Teto é teto, e não sugestão decorativa.
A decisão atinge em cheio aquela velha engenharia salarial que transforma exceção em regra e privilégio em rotina. Auxílio disso, gratificação daquilo, verba indenizatória que indeniza até o bom humor do mês. Dino basicamente disse o óbvio que andava sendo tratado como detalhe: a Constituição vale inclusive quando dói no bolso de quem sempre ganhou além.
Não resolve tudo. Não acaba com a cultura dos supersalários de um dia para o outro. Mas sinaliza freio. E, nos tempos atuais, qualquer freio institucional já parece avanço. O Brasil agradece.
E por hoje é só, minha gente. Neste país da piada pronta, continuo servindo seu cafézim com uma colherinha de sarcasmo e pitadas de bom humor. Até porque, só o deboche salva a nossa sanidade mental, quando o circo está pegando fogo.
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