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Segunda-feira, 11 de Maio de 2026

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Ontem, escravizadas domésticas; hoje, empregadas domésticas. Por Prof. Viaro

Texto de Adriano Viaro

Ontem, escravizadas domésticas; hoje, empregadas domésticas. Por Prof. Viaro
A empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos foi presa por agredir trabalhadora doméstica no Maranhão. — Reprodução/Redes sociais
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A prisão da escravizadora pós-moderna, Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, por agressões e abusos contra sua empregada doméstica nos remete aos séculos da escravidão no Brasil. 

Escravizadas domésticas ocupavam exatamente o mesmo local onde hoje fica a “dependência de empregada”. Nada mudou, sobretudo na lógica arquitetônica: porta de serviço, entrada por dentro da cozinha, quarto ao lado do tanque e do varal. Tudo estrategicamente posicionado para que a empregada adentre a casa da patroa somente após estar com o avental e de posse de seus instrumentos de trabalho. É quase da família.

O mito da “negra da casa” remete aos conceitos falaciosos de Gilberto Freyre que, em sua obra Casa-Grande & Senzala, tratava esse tipo de escravizado como alguém com maior intimidade com os escravizadores.

Freyre “esqueceu” que os abusos psicológicos, físicos e sexuais se davam na surdina, sem nem mesmo o testemunho dos demais da senzala. Ou seja, as paredes da Casa Grande, em seus cubículos destinados às domésticas, invisibilizavam e escondiam os abusos constantes praticados sob a égide do escravizador.

Não raro, nasciam assim os bastardos - de cabelos menos crespos e peles mais claras - que ou viravam a próxima geração de escravizados domésticos ou eram vendidos como espécimes mais caros.

Os domésticos duravam efetivamente mais tempo. Grosso modo, formaram a maior parcela dos “libertados” pela Lei dos Sexagenários, em 1885, quando foram lançados à própria sorte ao atingirem a idade da “não serventia” aos seus senhores.

Estavam envelhecidos e doentes e agora deixariam de ter até mesmo o cubículo para morar, sendo transferidos para colônias agrícolas de regime militar, caso não conseguissem “emprego” após os 60 anos. Era a forma legal de assassiná-los sem culpa ou necessidade de indenização.

Volto ao início: a [r]evolução copernicana possível com a transformação da sociedade após as rebeliões de maio de 1888 talvez só se faça valer no século 21, com a condução por algemas de uma escravizadora pós-moderna que insistia em tratar a “negra da casa” como se ainda estivesse no século 19.

Somente um país que escravizou por séculos o maior plantel de pessoas negras pode, em tempos atuais, vibrar com a prisão de uma legítima herdeira dos escravizadores de outrora - mesmo sabendo que Gilberto Freyre deixou impressões digitais em obras contemporâneas como as de Kátia Mattoso e Manolo Florentino. Que as manilhas, libambos, chicotes e cepos possam ser as algemas dos escravizadores de hoje.

Adriano Viaro

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