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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2026

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Pau d’Arco

Um filme obrigatório para entender o Brasil

Pau d’Arco
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Documentário dirigido pela jornalista Ana Aranha acompanha sobrevivente e advogado na luta por justiça após o massacre de dez trabalhadores rurais no Pará e expõe a violência da disputa pela terra no Brasil

Há filmes que entretêm. Há filmes que informam. E há filmes que deveriam ser vistos por qualquer pessoa que queira compreender o país em que vive. “Pau d’Arco”, documentário dirigido pela jornalista e documentarista Ana Aranha, é um desses filmes.

Disponível na Netflix, o longa acompanha, ao longo de sete anos, a trajetória de um sobrevivente do massacre de Pau D’Arco e de seu advogado na luta por justiça e pelo direito à terra. Em 24 de maio de 2017, dez trabalhadores rurais (nove homens e uma mulher) foram mortos durante uma operação das polícias Civil e Militar do Pará na Fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco. O episódio se transformou em um dos mais graves massacres relacionados a conflitos fundiários no país nas últimas décadas.

Mas “Pau d’Arco” não é apenas um filme sobre um massacre. É um filme sobre quem tem o poder de decidir quem pode viver, produzir e permanecer na terra no Brasil.

A história da Fazenda Santa Lúcia coloca diante do espectador uma questão que o Brasil insiste em não resolver: quem deve ter acesso à terra e qual é a função de uma propriedade rural?

A Constituição Federal é bastante clara. A propriedade privada existe, mas a propriedade rural precisa cumprir uma função social. O artigo 184 determina que a União pode desapropriar, por interesse social para fins de reforma agrária, imóveis rurais que não estejam cumprindo essa função, mediante indenização nos termos previstos pela Constituição. Já o artigo 186 estabelece que essa função envolve, simultaneamente, aproveitamento racional e adequado da terra, preservação ambiental, respeito às normas trabalhistas e exploração que favoreça o bem-estar de proprietários e trabalhadores.

Ou seja: no Brasil, ter uma propriedade rural não significa possuir um território acima de qualquer interesse coletivo.

Para se ter uma dimensão do que estamos falando, um hectare corresponde a 10 mil metros quadrados. Uma fazenda pode, portanto, acumular milhares de hectares, áreas gigantescas concentradas nas mãos de poucos proprietários.
E a questão central não é simplesmente o tamanho da propriedade. É o que se faz com ela, como ela é explorada e se ela cumpre sua função social.

É nesse ponto que a discussão sobre reforma agrária deixa de ser uma abstração e passa a dizer respeito à vida concreta de milhões de brasileiros.

O Censo Agropecuário de 2017 mostra que a agricultura familiar representava 76,8% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros e concentrava 67% das pessoas ocupadas no campo, embora ocupasse apenas 23% da área total dos estabelecimentos agropecuários. Em outras palavras, a maior parte dos estabelecimentos e da mão de obra do campo está na agricultura familiar, mesmo ela ocupando menos de um quarto da área rural recenseada.

E sua importância para a alimentação brasileira é enorme. Os dados mais recentes do Censo Agropecuário, de 2017, mostram que a agricultura familiar respondia por 80% do valor da produção de mandioca, 69% do abacaxi e 42% do feijão, além de 48% do valor da produção de café e banana, entre outros produtos.

Isso não significa que o agronegócio não produza alimentos. Produz. Mas significa que a ideia de que a agricultura familiar seria um setor secundário ou irrelevante para a alimentação do brasileiro simplesmente não corresponde aos dados.

“Pau d’Arco” coloca essa realidade diante da câmera de maneira brutal. A Fazenda Santa Lúcia, com mais de 5,6 mil hectares, tornou-se palco de um dos episódios mais emblemáticos da violência no campo brasileiro. Em 2017, policiais chegaram ao local para cumprir mandados judiciais. A versão inicial apresentada pelas autoridades apontava para um confronto. Testemunhas e sobreviventes apresentaram outra narrativa. Posteriormente, a perícia da Polícia Federal apontou elementos incompatíveis com a versão dada pelos oficiais de que foi um simples tiroteio, e o caso passou a ser tratado como uma possível execução.

O documentário não se limita ao momento dos tiros. É justamente depois deles que começa uma segunda batalha: a batalha pela verdade.

Ana Aranha acompanha os sobreviventes, as famílias, o advogado e todos aqueles que permanecem presos a um território marcado pelo medo. O filme mostra como a violência não termina quando as armas deixam de disparar. Ela continua nas ameaças, na insegurança, na dificuldade de investigação e na sensação de que determinadas pessoas possuem muito mais poder para fazer valer sua versão dos fatos do que outras.
E talvez essa seja a maior força de “Pau d’Arco”: mostrar que a violência no campo não é apenas física. Ela também é política, econômica, institucional e psicológica.

O filme questiona o que acontece quando aqueles que deveriam garantir a lei estão envolvidos, direta ou indiretamente, em estruturas de poder que beneficiam os donos da terra. É a velha pergunta brasileira: a Justiça funciona da mesma maneira para todos?

“Pau d’Arco” não precisa transformar essa pergunta em discurso. As imagens fazem isso. Ana Aranha, que também é jornalista, constrói o documentário com um olhar extremamente atento. Há momentos em que a presença da própria diretora e jornalista se torna necessária para organizar informações, contextualizar acontecimentos e ajudar o espectador a compreender aquilo que está vendo. A câmera espera. Os silêncios dizem tanto quanto os depoimentos. A trilha sonora certa entra nos momentos certos. Os enquadramentos criam tensão. Os cortes fazem o espectador perceber que alguma coisa está prestes a acontecer, mesmo quando ainda não sabe exatamente o quê.

É um filme que entende que documentário não é simplesmente colocar uma câmera diante de uma pessoa e deixá-la falar. Existe uma construção narrativa, uma escolha de ponto de vista e uma responsabilidade enorme sobre aquilo que está sendo mostrado.

“Pau d’Arco” é, portanto, um filme sobre dez pessoas assassinadas. Mas é também um filme sobre terra, poder, dinheiro, impunidade, reforma agrária, agricultura familiar e sobre os limites (ou a ausência deles) do Estado brasileiro diante de quem concentra poder econômico.

É um filme sobre quem paga o preço quando o direito escrito na Constituição não se transforma em direito vivido.

Em 2025, a Justiça Federal concedeu ao Incra a imissão provisória na posse da Fazenda Santa Lúcia, e o imóvel havia sido declarado de interesse social para fins de reforma agrária. A decisão mostra que a história daquela terra continua em disputa anos depois do massacre.
É impossível assistir a “Pau d’Arco” e não sair com perguntas.

Quem protege o trabalhador rural? Quem protege aquele que denuncia? Quem garante que a terra cumpra sua função social? E, principalmente, quem garante que a Justiça seja realmente Justiça quando os interesses econômicos envolvidos são gigantescos?

Talvez por isso “Pau d’Arco” seja um daqueles filmes que ultrapassam a tela. É jornalismo. É cinema. É memória. E é, acima de tudo, um retrato incômodo de um Brasil que muita gente prefere não enxergar. É um filme obrigatório.

Nota: 10/10.

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