Folha TV recebeu essas informações: Pesquisa Datafolha de julho reforça tese da polarização nas eleições de 2026, apontam analistas da FESPSP.
A nova pesquisa Datafolha de julho consolida um cenário de estabilidade na disputa pela Presidência da República. Mesmo após um mês de intensas crises políticas envolvendo a oposição e potenciais impactos do novo tarifaço de Trump sobre produtos brasileiros, o eleitorado brasileiro não parece alterar sua intenção de voto. Analistas políticos e pesquisadores da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), veja íntegra das análises abaixo, deduzem pelos resultados que a eleição parece se cristalizar numa disputa polarizada e de forte apelo moral, onde o "antipetismo" e o "antilulismo" funcionam como blindagens ideológicas. O cenário inviabiliza o crescimento de nomes da terceira via e travando a movimentação de partidos de centro.
Blindagem contra escândalos e o "voto do bem contra o mal"
Para o cientista político Aldo Fornazieri, coordenador do Curso de Pós-Graduação em Estratégia e Liderança Política da FESPSP, o dado central do levantamento é a rigidez das intenções de voto. Ele avalia que a manutenção dos números, diante de um cenário com fatos recentes amplamente desfavorável para a oposição, reconfigura o significado de vitória nesta etapa da pré-campanha.
A principal novidade da pesquisa Datafolha de julho é a estabilidade, diz o professor. É boa para Lula, nas simulações de segundo turno, porque ele ganha um ponto sobre Flávio Bolsonaro em relação à pesquisa de junho. Contudo, ela não é má para Flávio, uma vez que ele conseguiu manter-se estável. Em sua visão, essa situação reforça a tese de que as eleições estão polarizadas, pois não se trata de uma disputa de programas e de ideias. É uma disputa do bem contra o mal. “Se nada de extraordinário acontecer, a tendência é que esse jogo do bem contra o mal persista. Com a resiliência de Flávio, caem por terra especulações que surgiram nas últimas semanas, indicando que ele poderia desistir da candidatura", afirma Fornazieri.
Fôlego eleitoral e o nó estratégico com o Centrão
A leitura do cenário sob a ótica das alianças partidárias mostra que, embora a base de apoio da direita seja fiel, ela enfrenta barreiras para crescer. Beto Vasques, analista político e coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP (Labop), destaca que os números repetem tendências de outros institutos, mas acendem um alerta para as coligações da oposição na véspera das convenções partidárias. Há uma estabilidade quase absoluta, diz ele, com oscilações mínimas, confirmando tendência da pesquisa Quaest. “O senador do PL parece conseguir mostrar fôlego para seguir como o principal adversário do petista, mas não para evitar o risco cada vez maior de não conseguir atrair os partidos do Centrão para sua coligação", pondera Vasques.
Hilton Fernandes, cientista político e também pesquisador do mesmo laboratório, corrobora que a ausência de oscilação após fatos políticos de grande repercussão, como o caso Dark Horse, revela que o teto e o piso dos candidatos estão desenhados. Os valores de intenção espontânea e de rejeição também repetem os da rodada anterior, avalia. “Dado o contexto de reveses, o resultado geral pode ser considerado relativamente favorável para Flávio Bolsonaro", analisa Fernandes.
O teto da direita e a sobrevivência da aprovação de Lula
No detalhamento dos dados, o cenário de segundo turno mostra Lula com 48% e Flávio Bolsonaro com 43%. Para o cientista político e pesquisador do Labop, Jairo Pimentel, essa diferença e a estabilidade dos candidatos na intenção de votos do eleitorado demonstra tanto a força do sentimento antipetista quanto a incapacidade da oposição de dialogar com segmentos moderados da população. “A estabilidade em 43% indica sua dificuldade de ultrapassar o eleitorado já identificado com a direita e conquistar votos no centro”. A situação de Lula também não é das melhores, visto que sua avaliação de governo permanece estabilizada em um patamar de maior negatividade, embora, na pergunta binária, haja equilíbrio entre aprovação e desaprovação, “um saldo positivo que não se via desde dezembro de 2025”.
Outro dado importante, segundo Pimentel, é a agenda de preocupações do eleitor - saúde, segurança e economia -, o que pode explicar o baixo impacto imediato do tarifaço. “Embora a defesa da soberania possa funcionar como uma moldura política favorável a Lula, o eleitor permanece concentrado em problemas domésticos e concretos. O tarifaço oferece uma oportunidade narrativa, mas não alterou a avaliação do governo", conclui Pimentel.
ALDO FORNAZIERI
Cientista político e coordenador do Curso de Pós-Graduação em Estratégia e Liderança Política da FESPSP
Como a principal novidade da pesquisa Datafolha de julho é a estabilidade, a pergunta que cabe fazer é a seguinte: para quem ela é boa ou má? A resposta não é linear. Para Lula, é boa porque, nas simulações de segundo turno, ele ganha um ponto sobre Flávio Bolsonaro em relação à pesquisa de junho. Naquela pesquisa, Lula aparecia com 47%, e Flávio, com 43%. A diferença era de 4 pontos. Agora, Lula aparece com 48%, e Flávio mantém os 43%. A diferença sobe para 5 pontos, mas diferentemente da pesquisa Quaest de julho, em que é de 8%.
Para concluir a resposta à indagação: se a pesquisa é boa para Lula, ela não é má para Flávio. Por quê? Porque Flávio enfrentou, nas últimas semanas, uma avalanche de notícias ruins: fotos com o sicário de Vorcaro, tarifaço de Trump, brigas com Michelle Bolsonaro, notas fiscais emitidas para empresas vinculadas a Vorcaro, ataque às urnas eletrônicas e dificuldade de encontrar uma vice para a chapa... Com tudo isso, ele conseguiu manter-se estável.
Essa situação reforça a tese de que as eleições estão polarizadas. Isto é, aconteça o que acontecer em relação aos principais candidatos – Lula e Flávio – em termos de notícias boas ou ruins, a tendência é de que as intenções de voto em um ou em outro não tenham grandes variações. Não se trata de uma disputa de programas e de ideias. É uma disputa do bem contra o mal.
Para quem vota em Lula, a candidatura de Flávio é a encarnação do mal. E, para quem vota em Flávio, o presidente Lula é a encarnação do mal. Não importam os pecados que cada candidato possa ter para seus eleitores. O que importa é derrotar o mal. Se nada de extraordinário acontecer, a tendência é que esse jogo do bem contra o mal persista. As candidaturas de Caiado, de Zema e de Renan Santos não conseguiram auferir dividendos com a crise na candidatura de Flávio. Com a resiliência de Flávio, caem por terra especulações que surgiram nas últimas semanas, indicando que ele poderia desistir da candidatura.
BETO VASQUES
Analista político e coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP
Há uma estabilidade quase absoluta, com oscilações mínimas: um ponto percentual a mais na aprovação e um ponto percentual a menos na reprovação do governo. Esse cenário confirma os números e a tendência da pesquisa Quaest, que aponta um saldo positivo de 1% para a gestão. Ocorre também uma oscilação mínima, igualmente de 1%, na intenção de voto em Lula na simulação de segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Com isso, o senador do PL parece conseguir mostrar fôlego para seguir como o principal adversário do petista, mas não para evitar o risco cada vez maior de não conseguir atrair os partidos do Centrão para sua coligação.
HILTON FERNANDES
Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP
A pesquisa Datafolha divulgada hoje indica forte estabilidade no cenário da disputa presidencial e mantém praticamente inalterados os resultados de junho. No segundo turno, Lula registra 48% das intenções de voto — 1 ponto percentual acima de junho —, enquanto Flávio Bolsonaro permanece com 43%. Os valores de intenção espontânea e de rejeição também repetem os da rodada anterior.
Os dados sugerem que os acontecimentos políticos posteriores ao caso Dark Horse não causaram, até o momento, impacto adicional na candidatura de Flávio Bolsonaro. Contudo, é preciso aguardar os recortes por gênero, que ainda não foram divulgados, para avaliar se o desentendimento com Michelle Bolsonaro teve algum efeito específico sobre o eleitorado feminino.
Dado o contexto de reveses, o resultado geral pode ser considerado relativamente favorável para Flávio Bolsonaro, considerando-se a expectativa de que a pesquisa pudesse apontar uma desidratação de sua candidatura justamente na véspera de sua convenção.
JAIRO PIMENTEL
Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP
A nova pesquisa Datafolha confirma um cenário de estabilidade na disputa presidencial. O principal achado é a resistência de Flávio Bolsonaro: mesmo depois de um mês marcado pelo caso Banco Master, pela crise com Michelle Bolsonaro, pelo novo tarifaço associado à família e pela retomada dos ataques às urnas, seu eleitorado permaneceu praticamente intacto. Isso mostra que o antipetismo e a polarização continuam funcionando como um piso eleitoral bastante sólido para o candidato do PL. Ao mesmo tempo, a estabilidade em 43% indica sua dificuldade de ultrapassar o eleitorado já identificado com a direita e conquistar votos no centro.
A avaliação do governo Lula permanece estabilizada em um patamar de maior negatividade: 38% consideram a gestão ruim ou péssima, 32% a avaliam como ótima ou boa e 28% como regular. Na pergunta binária, há equilíbrio entre aprovação e desaprovação: 49% aprovam e 48% desaprovam, um saldo positivo que não se via desde dezembro de 2025. Entretanto, as oscilações em relação a junho — quando eram de 48% e 49%, respectivamente — estão dentro da margem de erro e não representam uma mudança efetiva.
Outro dado importante é a agenda de preocupações: a saúde aparece com 21%, a segurança pública com 19% e a economia com 14%. Isso ajuda a explicar o baixo impacto imediato do tarifaço, ao menos até o momento. Embora a defesa da soberania possa funcionar como uma moldura política favorável a Lula, o eleitor permanece concentrado em problemas domésticos e concretos. Para transformar o conflito com Trump em ganho duradouro, o governo precisará conectá-lo à vida cotidiana — emprego, preços, renda e proteção da economia nacional. O tarifaço oferece uma oportunidade narrativa, mas não alterou a avaliação do governo.
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