Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.
Nesta semana, o governo Lula teve uma derrota histórica no senado, com a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF. As reações no campo da esquerda foram as mais variadas, indo nas mais diversas direções. Isso me fez pensar em muitas coisas sobre como a militância da esquerda está tão perdida e sem coesão, quanto a própria comunicação institucional. Como o meu hiperfoco atual é o novo álbum do grupo BTS, me veio a pergunta: o que a gente pode aprender com o Army para melhorar a nossa militância?
Sim, estou falando do fandom do BTS. Aquela multidão organizada de fãs que faz trending topic nascer e morrer em questão de minutos, que domina os algoritmos com a mesma destreza que replica as coreografias do álbum “Arirang”, e que (Pasmem!!) nunca precisou de um partido central para coordenar os milhões de pessoas que compõem o fã-clube púrpura.
Pega um café duplo, porque eu sei que isso parece, à primeira vista, tão improvável quanto o Bolsonaro pedindo desculpas pelo golpe. Mas o fato é que a militância progressista pode aprender muita coisa com o Army.
Desde a eleição de 2018, entendemos que a extrema-direita brasileira já fez sua lição de casa, quando o assunto é usar as redes para engajar e pautar as conversas. Criou o gabinete do ódio, robotizou o WhatsApp, transformou a desinformação em uma indústria que elegeu centenas de vereadores, prefeitos, deputados e senadores nas últimas eleições. E o que a esquerda tem feito? Segue tentando operar no modelo de agitação de rua de 1980, só que agora com stories no Instagram. Como dizem meus filhos adolescentes: “Jurooo! Loss total de aura, isso aí”. Se queremos eleger deputados e senadores em 2026, precisamos de uma infraestrutura digital que funcione 365 dias por ano, e não só nos 45 dias de campanha eleitoral. O Army já demonstrou que sabe fazer isso e eu posso provar.
A célula é o novo núcleo
O Army não tem um único comandante, e sim centenas de fanbases autônomas espalhadas pelo mundo, cada uma com sua identidade própria regional, com seu público, com sua linguagem. Elas operam de forma independente, mas alinhadas a uma agenda comum: manter seus idols no topo das conversas, sem perder a influência e relevância na cena musical mundial. Cada uma traduz a mensagem para o nicho dela: streaming, chart, fanfic, ativismo. Funciona porque não depende de um guru de cima mandando o que fazer.
A esquerda brasileira, por outro lado, ainda centraliza tudo em vozes institucionais: partidos, sindicatos, deputados. Fáceis de neutralizar. Basta um lawfare, uma desmonetização, um processo, e a voz some. O que precisamos é de uma rede de micro-influenciadores progressistas independentes, com autonomia narrativa, mas com pautas e calendário compartilhados. Células que traduzam a mensagem para o nicho delas: o professor, a mãe solo, o entregador de app, a estudante de universidade federal. Sem burocracia partidária, sem carta branca para desvios, mas também sem microgerenciamento de cima.
O PT tem diretório. O Army tem fanbase. A diferença? Um deles funciona todo dia.
A rotina vence a reatividade
O Army transformou engajamento em ritual. Tem horário de streaming, tags padronizadas, metas numéricas visuais etc. Desde o retorno do BTS, pode-se ter a impressão de que eles dominam o algoritmo, furando a bolha constantemente. E isso é graças ao Army, que está presente diariamente, e não esporadicamente. A militância política brasileira, por sua vez, é reativa: a direita joga a pauta às seis da manhã, e a esquerda responde às seis da tarde, já com o algoritmo perdido e a narrativa consolidada.
Precisamos de um calendário de ocupação digital permanente. Hashtags recorrentes, lives temáticas fixas, desafios de conteúdo que mantenham a palavra progressista no topo das tendências de forma rotineira. A direita cria pauta; a esquerda precisa aprender a criar também. Tivemos um gostinho disso com a pauta do fim da escala 6x1. Esse é o resultado que temos quando dominamos a pauta e impomos as causas relevantes ao algoritmo, com a mesma disciplina de quem faz stream party às três da manhã para alavancar a posição do BTS no chart coreano ou no topo das paradas da Billboard.

Os ingressos para os shows do BTS World Tour Arirang têm se esgotado rapidamente, em todos os países. (Foto: Divulgação)
A alfabetização digital é a principal arma
O Army ensina massivamente seus membros a usar VPN, contornar geolocalização, votar em enquetes internacionais, entender métricas de plataforma. Isso é alfabetização digital política. A extrema-direita brasileira fez algo parecido com o Telegram e o WhatsApp. A esquerda ainda trata tecnologia como mero veículo de divulgação, e não como um território que precisamos disputar.
Precisamos de "escolinhas progressistas" sobre como funcionam algoritmos, como identificar desinformação, como impulsionar conteúdo organicamente. Não é questão de formar hackers; é questão de formar militantes que entendam o campo de batalha. Quem domina a plataforma domina a narrativa. Quem domina a narrativa domina a atenção. E quem domina a atenção, em tempos de democracia líquida, domina o voto.
O afeto é a ideologia: ser de esquerda precisa ter aura
O Army mobiliza com pertencimento, estética e afeto. A extrema-direita brasileira também faz isso, mas com memes e humor questionável. No campo de lá, quanto mais reacionária a publicação, mais engajamento entre seus pares. A esquerda, muitas vezes, cai no didatismo moralizante, onde ser progressista é um dever, e não um desejo. Um dever que não atrai ninguém que ainda não esteja convencido.
Precisamos de estética, humor e narrativas de pertencimento onde ser de esquerda não seja apenas "correto", mas desejável culturalmente. Especialmente para os mais jovens, que vão votar pela primeira vez. É preciso servir CUNT! Não se rebate meme com PDF e vídeo institucional. Sidônio à frente da comunicação do governo começou uma mudança, mas é preciso ir além dos memes de gatinhos.
A política precisa ser vivida como identidade, como comunidade, como algo que dá prazer de pertencer, como o Army faz, e não só razão para defender. A política também se faz no campo dos afetos.
Dados são poder
O Army sabe exatamente quais contas têm alcance em quais países, quais horários funcionam, quais formatos viralizam. A esquerda brasileira precisa de um mapeamento sistemático dos influenciadores regionais. Não devemos nos prender apenas aos grandes de São Paulo, mas conversar com os micro e até nanoinfluenciadores de cidade pequena, que têm uma alta conversão local. E precisamos cultivar esses relacionamentos fora do período eleitoral.
O BTS não aparece de quatro em quatro anos pedindo voto. Está presente diariamente. Não deixou de aparecer nas redes, ainda que com menos força, mesmo durante seu hiato para o serviço militar. Não faltavam fotos dos meninos de uniforme, celebrações de datas especiais para o grupo e por aí vai, tudo isso graças ao impulsionamento constante do Army. Um candidato a deputado federal que só lembra que existe interior no ano eleitoral não é candidato: é série flopada da Netflix que ninguém assiste fora do burburinho do lançamento.
Mass Reporting pela democracia
Quando o Army sofre um ataque massivo (mass reporting, fake news), responde com protocolos ensaiados. Faz denúncia reversa em massa, tags de desmentido padronizadas, pressão em anunciantes. A militância progressista ainda reage de forma individual e tardia às operações do "gabinete do ódio".
Precisamos de um manual de resposta rápida distribuído, com linguagens pré-aprovadas e canais de denúncia organizados. Não é para criar robôs ou espalhar mentiras. É para defender o espaço digital com a mesma eficiência com que a direita o ataca. Pra cima deles!
Organização sem desumanização
Aqui vai um aviso necessário. O Army, como a extrema-direita, às vezes emprega táticas de spam, inundação e até uma certa pressão tóxica. Este é o lado negativo a ser evitado. A lição aqui não é replicar o volume descontrolado, mas sim a organização e a longevidade.
A esquerda não precisa de robôs nem de mentiras. Precisa de uma militância digital tão estruturada quanto a da direita, mas baseada em informação verificada e participação real de seus militantes. O desafio é fazer isso sem perder a alma. E é possível. Basta querer.
De hoje em diante, só quero militância funcional
O Bolsonaro pode estar preso, mas o bolsonarismo está armado e digital. A esquerda tem as pautas certas, e quer o melhor para todos sem distinção: habitação, saúde, trabalho, dignidade. O que falta é a infraestrutura para entregar essas pautas na tela do celular de quem precisa ouvir.
Em 2026, mais uma vez a eleição não será decidida só na TV, muito menos nos palanques. Será decidida no TikTok, no WhatsApp, no X, no Instagram... E se a esquerda quer eleger mais deputados e senadores, precisa parar de agir como se a internet fosse um adendo da política real. A internet é a política real. A internet é o novo chão de fábrica!
O Army já mostrou que milhões podem se organizar sem hierarquia rígida, com afeto, disciplina e técnica. Agora é com a gente: ou aprendemos a fazer stream da democracia todo dia, ou ficamos assistindo a direita dominar o chart enquanto a gente ainda tenta descobrir como funcionam os stories do Instagram.
E por hoje é só, minha gente. Neste país da piada pronta, continuo servindo seu cafezim com uma colherinha de sarcasmo e pitadas de estratégia digital. Porque aqui a caneca é extra grande, e a reeleição de Lula não vai ser fácil.
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