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Terça-feira, 07 de Julho de 2026

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Pindorama: pára-raios de malucos. Por Lia Sérgia Marcondes

Cafézin do Fim do Mundo

Pindorama: pára-raios de malucos. Por Lia Sérgia Marcondes
Foto: João Paulo Biage/O Povo
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Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.

Assim é o Brasil. Essa linda terra de clima quente, solos férteis, água abundante, florestas extraordinárias, gente alegre e criativa, boa música, produções audiovisuais impecáveis, mentes científicas impressionantes... e que desde sempre atraiu toda sorte de doido que por ali decidiu se aventurar.

E cada um que chegou e fez daquele canto do mundo o seu lar, contribuiu para a construção de um país tão diverso, que há centenas de brasis dentro do Brasil. Mas se tem uma coisa que poderia ser considerada unanimidade, é que o Brasil é um incrivelmente eficiente pára-raios de malucos.

E nessa loucura de dizer que não... Ops! Me confundi aqui.

Voltando... 

E no meio deste rico caldo cultural, a extrema-direita também encontrou terreno fértil para vingar. Aproveitaram-se de uma necessidade carente e doentia que muita gente tem da figura de um “salvador da pátria” para construir sua base fiel de seguidores. 

Passa um café e vem comigo, pra destrinchar isso.

KU KUX KLAN INSTITUCIONAL

Minneapolis virou uma espécie de laboratório vivo da autocracia trumpista. Em poucas semanas, agentes federais ocuparam bairros inteiros como se fossem um território inimigo. Mataram civis em operações de imigração e transformaram as vans pretas sem identificação e os rostos mascarados dos agentes do ICE no novo símbolo da “lei e ordem” nos EUA. A coisa toda escalou ao ponto de o prefeito da cidade pedir que o ICE fosse embora. Sim. Um prefeito estadunidense pediu para o governo federal sair da cidade. 

E se você estiver pensando que a milícia trumpista persegue apenas os “criminosos perigosos”, pense de novo. Como já cantaram os Engenheiros do Hawaii: qualquer coisa que se mova é um alvo e ninguém está a salvo. Um menino de cinco anos foi detido junto com o pai, numa operação que viralizou no mundo inteiro e fez até o governo do Equador pedir explicações. CIN-CO-A-NOS. A criança teria sido usada como isca para capturar outros imigrantes. O sonho americano está meio diferente... Se fosse em Cuba, chamariam de sequestro estatal. Mas como é nos EUA, é o enforcement.

A caçada humana não parou em Minneapolis. No Maine, o ICE prendeu mais de 200 pessoas em uma única operação, mostrando que a política virou uma guerra contra pobres, latinos e qualquer um com o “sotaque errado”. É o velho script: desumaniza, militariza, normaliza. No fim, qual é a diferença entre a Ku Klux Klan e o Estado? Um usa capuz, o outro usa uniforme, e é financiado com orçamento federal e coletiva de imprensa.

Abram os olhos. A distopia não chega como golpe clássico, mas com portaria administrativa, coletiva de imprensa e hashtag patriótica. EUA, “Terra da Liberdade”.

Cartoon de Vasco Gargalo (Instagram: @vascogargalo)

GUERRA (NADA) SANTA

Enquanto o mundo olha para Trumpígula e seus delírios imperialistas, no Brasil a extrema direita entrou na minha fase favorita: a guerra interna entre os “ungidos”, no melhor estilo “briguem desgraçados”. O racha entre Silas Malafaia, Damares Alves e André Valadão escancarou o que a gente já sabia: a bancada da Bíblia está muito mais preocupada com os seus projetos pessoais de poder do que com os supostos “valores cristãos” que berram aos quatro ventos.

Damares resolveu dizer que grandes igrejas estariam envolvidas nas falcatruas do INSS. Malafaia chamou a ex-ministra de “linguaruda”. Valadão respondeu chamando a denúncia de “língua do capeta”. É a teologia da prosperidade aplicada à sucessão política: quem controla o púlpito controla o voto.

No meio disso tudo, a extrema direita procura um novo messias eleitoral. Flávio Bolsonaro tentou reforçar o currículo político com um segundo batismo no Rio Jordão. Será que ele estava tentando reiniciar o sistema operacional da fé? (Se é que ele tem mesmo uma...)

Mas os grandes pastores não compraram a ideia: Malafaia já disse que o 01 não tem musculatura política, enquanto outros preferem Tarcísio com Michelle de vice. E o resumo teológico-político é simples: não é guerra santa, é guerra de mercado. Quem manda nos fiéis manda nos votos, nas verbas, nas emendas e nos contratos. A fé é só a estética. O altar é palanque. O dízimo é capital político. E o Espírito Santo, como sempre, não foi consultado. Nesse BBB gospel, minha torcida é sempre pela treta.

MESSIAS TRAINEE

Enquanto os pastores brigam pelo controle do rebanho, a extrema direita resolveu testar um Messias Júnior. Nikolas Ferreira saiu em peregrinação eleitoral pelo país, em romaria política disfarçada de ato cívico, tentando se consolidar como profeta da nova geração bolsonarista. Seguiu seu roteiro clássico de blogueirinho: selfie, palanque, discurso inflamado e promessa vaga de “redenção nacional”.

Durante o ato pela anistia de Bolsonaro, depois de tanto pedirem a Deus que lhes enviasse um sinal, os manifestantes foram atingidos por raios. Entre feridos leves e pessoas internadas, o evento virou um espetáculo teológico involuntário: trovão, comoção, interpretação divina no Twitter. A natureza fez o fact-checking mais rápido da história da extrema direita.

O Chupetinha quer ser líder político, insistindo em parecer personagem de culto jovem. Mas, por enquanto, a sua peregrinação não consolidou liderança, só consolidou meme. O protótipo falhou, mas não vamos nos iludir. Eles continuarão treinando sua versão Beta do “mito”. Cuidado, Brasil! Esse proto-messias tem mais potencial do que o anterior no quesito destruir a democracia.

Charge: Nando Motta /Instagram (@desenhosdonando)

CORTINA DE FUMAÇA DE INCENSO

Enquanto o projeto de messias encenava uma peregrinação, uma notícia bem menos mística passou quase despercebida: o número de telefone do Chupetinha apareceu nos contatos do celular de Daniel Vorcaro. Sim, aquele do escândalo bilionário do Banco Master. Nada prova crime, mas prova algo mais importante: conexões. Política não se faz com fé, faz-se com telefone salvo na agenda.

Documentos que vieram das quebras de sigilo autorizadas pela CPMI do INSS, mostram que Vorcaro tinha o contato do deputado na sua lista de WhatsApp Business. Apesar da ausência de registro de mensagens, contratos ou encontros, há um contexto que não pode ser ignorado: uma investigação que tenta mapear fluxos de influência entre políticos, empresários e estruturas religiosas que operam como fintechs paralelas.

E vejam só que coisa curiosa... Nikolas frequenta exatamente a igreja que aparece no radar das apurações. Coincidência? Pois no Brasil, uma cortina de fumaça nunca é só fumaça. Também pode ser incenso gospel.

ENQUANTO ISSO, NA SALA DE JUSTIÇA

Enquanto a extrema direita brinca de messias, e o capital brinca de república, o Judiciário finge que não está no mesmo condomínio. O caso Dias Toffoli virou uma verdadeira novela. Entre diárias pagas pelo Judiciário para seguranças numa cidade com resort ligado à família do ministro, conexões societárias com investidores investigados e coincidências que, somadas, formam aquele desenho que a gente já viu em série de true crime, a tempestade que se formou sobre a cabeça do ministro animou aqueles que aproveitam qualquer oportunidade para desacreditar o Judiciário brasileiro.

A reação dos colegas foi mais reveladora que o caso em si. Ministros pressionaram Edson Fachin a publicar uma nota em defesa de Toffoli. É a velha conhecida solidariedade institucional, com direito à blindagem preventiva. O STF operou como qualquer corporação de elite: primeiro protege o seu, depois discute a teoria da ética em seminário fechado com coffee break.

Não há prova de ilegalidade nas diárias, nos resorts ou nas relações societárias. O problema é outro: percepção pública. Entre polêmicas e investigações, a toga começa a parecer mais um mero dress code do que um símbolo republicano. No Brasil, a Justiça não é cega. Ela só usa óculos de sol em ambientes VIP.

E assim seguimos: neopentecostais disputando rebanho, proto-messias treinando discurso, banqueiros ligando para deputados e ministros defendendo ministros. A República virou condomínio fechado, e a democracia é um spa com acesso restrito.

DE HOJE EM DIANTE, SÓ QUERO BOAS NOTÍCIAS

No meio do caos e de momentos muito tristes, uma notícia ousou ser quase… boa. A última pesquisa da AtlasIntel mostrou Lula à frente em todos os cenários testados para 2026, vencendo Flávio, Michelle, Tarcísio, Caiado e até o Bolsonaro inelegível em simulações de primeiro e segundo turno. O presidente flerta com quase metade das intenções de voto, enquanto a direita segue brigando para decidir quem segura o microfone.

Claro que, em termos de calendário eleitoral, ainda falta uma eternidade até outubro. Afinal, pesquisa é uma fotografia do momento, e só na eleição vemos o filme completo. Mas o dado político é claro: a extrema direita continua sem herdeiro consensual, fragmentada entre pastores, governadores e outros candidatos a herdeiros do mito. Enquanto isso, o velho Lula segue sendo o único nome capaz de unir voto popular e liderança nacional no mesmo pacote. A democracia brasileira é uma série que não deixaremos ninguém cancelar.

Então, sim: é uma boa notícia. Não porque garante vitória, mas porque mostra que o projeto autoritário ainda não virou senso comum. 

E por hoje é só, minha gente. Neste país da piada pronta, continuo servindo seu cafézim com uma colherinha de sarcasmo e pitadas de bom humor. Até porque, no Brasil, a única certeza para cada próxima boa notícia, chegam três más e um escândalo paralelo.

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