Por Pedro Zambarda, editor.
O jornalista Reinaldo Azevedo, provavelmente um dos nomes mais interessantes do progressismo no Brasil hoje, após uma longa fase de antipetismo no colunismo político, resgatou nesta semana o prêmio Nobel de Literatura Albert Camus, o escritor franco-argelino na Segunda Guerra Mundial. O primeiro africano, embora branco, a ganhar essa notoriedade na Europa.
Eu tenho uma relação antiga com a literatura de Camus. Meu primeiro emprego no jornalismo foi um trabalho de Iniciação Científica na Faculdade Cásper Líbero, com artigo acadêmico publicado na Universidade de São Paulo, a USP, sobre o jornalismo clandestino de Albert Camus no jornal Combat, uma publicação clandestina do Partido Comunista francês durante a ocupação nazista da República de Vichy. Meu trabalho é um dos poucos que se debruça no jornalismo camuseano e não exatamente no literato.
Camus acreditava no jornalismo opinativo para além do investigativo. Seus editoriais criticavam o nazismo, a bomba atômica dos Estados Unidos, a guerra e elogiava a resistência à esquerda. Teve caminho nos círculos intelectuais franceses após sair da Argélia por intermédio de Jean-Paul Sartre, com quem entraria em choque depois, justamente com o filósofo que ajudou a criar outro jornal francês, o Libération.
Sartre acreditava nas revoltas armadas e no processo revolucionário, enquanto Albert Camus não acreditava no embate direto e pregava certo pacifismo. Rompidos, o comunista Sartre criticou publicamente Camus, que chegou a ser chamado de anticomunista.
Reinaldo Azevedo lembrou de O Mito de Sísifo e da questão do suicídio como pergunta fundamental na filosofia de Camus. O autor franco-argelino era erroneamente enquadrado como parte do existencialismo francês, mas na realidade Albert Camus era um estudioso do fenômeno do Absurdo e como ele descrevia o século 20 e as Guerras Mundiais. Como a consciência do homem, solto do seu passado e do seu futuro, permitia a criação de armas que colocavam em risco a sua existência. O absurdismo era criticado ao longo das obras camuseanas e também no seu jornalismo.
A Peste é um livro de Camus que foi muito lido na época da pandemia da Covid-19 (e eventualmente encenada em uma peça com o ator Thiago Lacerda, que eu entrevistei para o Meteoro Brasil). É muito feliz que Reinaldo tenha puxado esse nome rico dentro do debate de esquerda na Europa e no mundo.
E vale assistir meu editorial na Folha TV para entender a minha pesquisa. Vai que eu transformo isso numa tese de mestrado ou doutorado.
Detalhes da minha pesquisa estão no site AlbertCamus.com.br e no meu portifólio.
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