Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.
Parece que a nossa primeira-dama virou o “saco de pancadas” preferido de militantes de todos os campos ideológicos. Sempre que alguém quer criticar o governo e não sabe exatamente o que dizer, toca a falar mal da Janja.
Nesta terça-feira (20), Janja foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural. A honraria é concedida a pessoas que, “por sua atuação profissional ou como incentivadoras das artes e da cultura, mereçam reconhecimento”.
Dito isso, a pergunta que mais ouvi (inclusive de militantes da esquerda!), foi: o que Janja fez para promover a cultura? Resolvi responder.
Antes mesmo de se casar com o Lula, muito antes de se tornar a primeira-dama mais militante que o Planalto já viu (e de incomodar esquerda, direita e centro de forma igual), quem era Rosângela da Silva?
Quando ainda não ocupava manchetes ao lado do presidente, a socióloga Rosângela da Silva já fazia história nas fileiras da militância política. Por mais de 15 anos, Janja atuou como funcionária da Itaipu Binacional, empresa responsável por uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo.
Durante esse período, ela liderou e articulou ações com comunidades ribeirinhas, povos indígenas e pequenos produtores, integrando políticas públicas às necessidades reais das populações afetadas por grandes obras de infraestrutura. Resumindo: Janja sempre atuou diretamente na cultura de base, junto ao povo e aos movimentos sociais, por meio de projetos socioambientais, de cultura e de desenvolvimento sustentável.
Janja também tem uma longa trajetória de militância no Partido dos Trabalhadores (PT), desde os anos 1980. Participou de núcleos de base, campanhas eleitorais e articulações com movimentos sociais, especialmente com enfoque em: cultura popular, direitos das mulheres, economia solidária e soberania alimentar e segurança hídrica no semiárido.
Ou seja, Janja já era uma mulher com currículo, causa e coerência muito antes de se tornar a primeira-dama. O casamento com Lula foi uma consequência do encontro de trajetórias, e não o ponto de partida dela, que já tinha uma história própria, militância de base e uma carreira pública consolidada.
E se, para vocês, toda essa atuação anterior parece “irrelevante” porque só valorizam mais quem está sob os holofotes, saibam que ela nunca deixou de trabalhar. Pelo contrário. Sua presença ficou ainda mais evidente desde a posse.
No atual governo, Janja tem atuado como uma espécie de ponte entre o Palácio do Planalto e os palcos do Brasil real. Um de seus atos mais simbólicos foi a idealização do Festival do Futuro, durante a posse de Lula, que ocupou a Esplanada com artistas como Pabllo Vittar, Martinho da Vila, Duda Beat e outros nomes de peso. Um recado era claro: o ódio tinha sido “derrotado” pela arte.
Desde então, a primeira-dama apoia abertamente a revitalização do Ministério da Cultura, extinto durante o governo anterior e hoje sob o comando da cantora Margareth Menezes. Também está sempre presente em eventos de valorização da cultura afro-brasileira, indígena, popular e feminista, com atenção à produção feita nas periferias. E não tem pudor em usar a sua visibilidade para fortalecer a moda como expressão cultural e política, dando palco a estilistas negras, periféricas e independentes.
Mais do que tudo isso, Janja compreende que cultura é ferramenta de reconstrução democrática. Seu ativismo é sutil e eficiente: articula, escuta, propõe. Promove uma ideia de país onde a arte e os afetos são pilares da política pública. Dentro de um cenário social onde tantas vezes o feminino foi relegado à “moldura decorativa do poder”, Janja aparece, ocupa seu lugar. E não é um lugar qualquer, tampouco ocupado de forma improvisada. Ela faz isso com discurso, com conteúdo, com agenda.
Nós, da esquerda, precisamos parar de atacar Janja, só porque ela não é o “modelo de primeira-dama” ao qual estávamos acostumados. Até porque o Brasil não precisa mais de damas silenciosas. Precisa de vozes ativas e altivas. Precisamos de primeiras-damas que conhecem do chão de fábrica ao palco da escola de samba, dos livros de sociologia às rodas de capoeira. Uma representação feminina que sabe que o povo tem fome de pão e de arte.
Agora eu pergunto: e você? O que tem feito para promover a cultura no seu bairro, na sua cidade?
Comentários: