Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.
Imaginem vocês, o que é ver as notícias da política brasileira sem querer se enforcar num pé de coentro. Se eu tivesse com o meu marido a mesma paciência que eu tenho para assistir ao noticiário (e ouvir as barbaridades proferidas pelos bolsonaristas), a gente teria menos discussões em casa.
Há poucos dias, muitas de nós ficamos chateadas quando Lula elogiou a beleza de Gleisi Hoffman, deixando de ressaltar na mesma fala a enorme competência da ministra. Só que fomos “acordadas”, rapidamente, para a lembrança de que a esquerda e a direita são feitas de “materiais diferentes”, graças ao infeliz tweet do deputado Gustavo Gayer, no X. E como essa “turminha” nunca derrama pouco chorume, o senador Plínio Valério foi lá e meteu mais lixo na caçamba. Que beleza!
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 21,4 MILHÕES de brasileiras sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses. Estamos falando de 37,4% do total de mulheres brasileiras. Sabem qual é a pior parte? Cerca de 91,8% das agressões aconteceram NA FRENTE DE TERCEIROS.

Não é novidade que o Brasil está na lista dos países mais violentos do mundo, e que toda essa violência reflete diretamente no dia-a-dia das mulheres, e não é a única luta que temos. Além da própria violência, lutamos contra a desigualdade de gênero e a ausência de políticas públicas voltadas para as necessidades e os direitos básicos da mulher.
Comprovadamente, o nível médio de escolaridade das mulheres brasileiras é maior, mas ainda somos minoria nas posições de liderança do mercado de trabalho e somos poucas a ocupar cargos na vida pública. Temos menos oportunidades de crescimento profissional, e somos preteridas pelo fato de termos filhos (ou mesmo pela possibilidade de vir a ter algum dia). Nem vou entrar no assunto de que somos mais sobrecarregadas dentro e fora de casa, senão essa coluna vira um livro.
Tudo isso também reflete em como as mulheres são tratadas na (e pela) classe política. O número de mulheres na Câmara dos Deputados, por exemplo, é inferior a 20% do total de parlamentares. Não é raro termos notícias de que algum deputado ou vereador se referiu a uma colega de forma misógina ou machista, tendo com ela um desrespeito que não teria com um colega homem. Pior ainda, quando estamos falando da extrema-direita. Um fala em estupro, o outro fala em enforcar...
O ódio dessa gente contra as mulheres é histórico. Sempre fomos a principal resistência contra a extrema-direita, através do nosso voto. Mas, para estes que querem continuar livres para nos matar e destruir, não passamos de enlouquecidas Rainhas de Copas, a brigar por rosas pintadas e a pedir que lhes cortem as cabeças.
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