Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal.
Todos já tivemos a sensação de que há coisas que só acontecem no Brasil. Até porque a ficção, por mais criativa que seja, ainda precisa respeitar uma lógica interna da narrativa. Na vida real não tem essa restrição. A vida real é um seriado infinito onde o roteirista está bêbado e a continuidade é opcional.
Na última semana, o Intercept Brasil nos serviu um prato quente: áudios e mensagens mostrando que Flávio Wonkanaro estava cobrando milhões de reais de ninguém menos do que Daniel Vorcaro, o banqueiro do Banco Master, para financiar “Dark Horse” (vulgo: O Pangaré). A cinebiografia do Inelegível Soluçante é algo que ninguém pediu, sobre o homem que ninguém quer ver de volta e que, aparentemente, foi bancada com dinheiro que ninguém sabia de onde veio. O cinema nacional vive!
Pega teu café duplo, porque hoje é monotemático. E o tema é: como destruir uma pré-campanha presidencial antes mesmo dela começar oficialmente. E o verdadeiro Pangaré, nessa corrida eleitoral, era aquele em que Vorcaro erroneamente apostou suas fichas.

INTERCEPTANDO A VERDADE
A manhã, antes da liberação da bomba, começou com o jornalista do Intercept perguntando ao senador, lá em Brasília, pertinho do STF: "Por que o filme do seu pai foi bancado pelo Vorcaro?" Com um sorriso constrangido, uma gargalhada e um "De onde você tirou essa informação? É mentira." recebidos como resposta, a reportagem foi liberada logo mais à tarde. Completinha, com áudios, mensagens, tabelas de pagamento, ligações telefônicas... Em poucas horas, o "é mentira" virou uma nota pública em que Flávio foi forçado a admitir tudo: sim, pediu dinheiro; sim, era para o filme; sim, conheceu Vorcaro em dezembro de 2024; sim, cobrou atrasos. A velocidade da mudança de versão foi tão rápida que deu whiplash. Se mentira fosse energia renovável, a família Bolsonaro já teria resolvido a transição ecológica sozinhos.
A maior piada aqui foi ele tentar vender a narrativa de "Sou apenas um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet". Ah, tá! Porque quando o assunto é um financiamento total de R$134 milhões de um banqueiro que teve seu banco liquidado pelo Banco Central, em meio a suspeitas de fraude bilionária, o que importa de verdade é que não usou Lei Rouanet. A cara nem arde...
R$134 MILHÕES: O FILME MAIS CARO DO BRASIL
Se você estava ocupado demais porque a escala 6x1 ainda não foi enterrada, eu resumo para você. Vamos aos números, porque aqui a gente gosta de fatos. O acordo previa R$134 milhões na cotação da época. Pelo menos R$61 milhões já teriam sido efetivamente pagos em seis transferências entre fevereiro e maio de 2025.
Como a gente não tem milhões no banco e não tem a dimensão do valor, vou contextualizar. O filme “Ainda estou aqui”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, custou R$45 milhões. O vencedor da mesma categoria em 2026, “Valor sentimental”, custou cerca de R$41 milhões. Ou seja, o filme sobre Jair Bolsonaro teria um orçamento quase três vezes maior do que o filme que deu um Oscar ao Brasil. O narcisismo familiar tem preço. E é alto.
A estreia deste “primor” cinematográfico estava prevista para 11 de setembro de 2026, apenas poucas semanas antes da eleição presidencial. Você escolhe “coincidência” ou uma propaganda antecipada misteriosa? Cada um acredita no que quiser...
E CADÊ O DINHEIRO?
Aqui é onde a coisa deixa de ser só engraçada e começa a ser séria. Se o dinheiro saiu de Vorcaro, e Flávio cobrou, e o contrato existia... cadê o dinheiro no filme?
A produtora Go Up Entertainment negou ter recebido repasses de Vorcaro. Disse que o filme só tem investimentos estrangeiros, sem ligação com o banqueiro. Mário Frias também declarou que não há "um centavo" do ex-banqueiro na produção. Então, para onde foram os R$ 61 milhões? Teria ido para... o Texas?
E não é que foram? De acordo com a matéria, parte dos recursos teria sido enviada para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas e ligado a aliados políticos próximos de ninguém menos do que o Little Banana. A estrutura tinha como agente legal o advogado Paulo Calixto, outro aliado do 03. A PF agora investiga se o dinheiro abasteceu atividades políticas, lobby internacional ou articulações contra autoridades brasileiras nos EUA.
Só um momentinho, que vou espirrar. **Aaaaa... lavagem de dinheiriiiimmmm**
Resumindo: o dinheiro supostamente deveria financiar o tal "filme privado" pode ter parado em um fundo de investimento no Texas ligado ao irmão do Rachadinha. É quase poesia.
O HOMEM QUE MENTIA DEMAIS
Vamos às contradições, porque elas são o tempero deste prato. Há dois meses, quando o número de Flávio apareceu na agenda de Vorcaro, ele negou conhecer o banqueiro. Já na nota que publicou depois da matéria divulgada, admitiu que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024. E que retomou contato por causa de atrasos no pagamento. E que tinha um contrato. E que cobrou.
A pré-campanha de Wonkanaro foi pega de surpresa. Com a promessa de "risco zero" para novos vazamentos, seu time não preparou uma estratégia de contenção de danos. (Sorte nossa!) O mais patético de tudo foi ele ter aparecido, dias antes, com uma camiseta escrita "O Pix é do Lula, o Master é do Lula". Quando a casa cai, a culpa é sempre do vizinho.
Wonkanaro alegou “sigilo contratual” por não ter revelado antes. A gente nem estranha. Dizem as más línguas que a turba bolsonarenta é adepta de fazer coisas no sigilo. Mas fica uma pergunta: um candidato que mentiu até mesmo para a própria equipe, que não confia no seu próprio staff, é merecedor da confiança do eleitor para governar o Brasil?
ZERO DINHEIRO PÚBLICO OU ZERO VERGONHA NA CARA?
E já que o Rachadinha jurou de pés juntos que não tinha "um centavo" de dinheiro público no filme do papai, vamos dar uma olhadinha nos recibos. Porque a produtora Go Up e suas empresas irmãs, apesar de supostamente receber zero de lei Rouanet, zero de verba pública, zero de tudo, parecem ter um hábito curioso: coletar emendas como quem coleciona selos.
Deputados estaduais de São Paulo destinaram R$700 mil em emendas a entidades ligadas à produtora do filme entre 2023 e 2026. Entre eles, o Instituto Conhecer Brasil, ligado à produtora. Mas não para por aí. O instituto também firmou um termo de colaboração com a Prefeitura de São Paulo para receber R$108 milhões. A finalidade era fornecer wi-fi em comunidades. R$108 milhões! (Wi-fi caro da peste é esse?)
Se tudo parecer “circunstancial”, o próprio produtor-executivo do Pangaré, o deputado Mário Frias, destinou R$2 milhões em emendas federais para projetos de “letramento digital” e “esporte”, que ninguém sabe onde estariam sendo executados.
Enfim... Zero de dinheiro público? A produtora alega que o filme não recebeu verba do Vorcaro diretamente, mas a rede empresarial por trás dele vive de mamar nos cofres da nação (algo que a turma deles sempre atribui à esquerda).
Há todo um ecossistema de fachada cultural onde emenda vira investimento, prefeitura vira patrocinadora e deputado vira produtor. Ah, mas é o cinema nacional! Mas esse aí o primeiro em que vejo a gente pagar o ingresso sem nem saber que comprou uma poltrona.
DE HOJE EM DIANTE, SÓ QUERO BOAS NOTÍCIAS
E a boa notícia de hoje é que a imprensa independente ainda funciona. Que áudios vazam, que documentos aparecem, que a verdade pode demorar, mas eventualmente alcança quem precisa ser alcançado.
Neste caso, a verdade veio com data e hora marcada: 13 de maio de 2026. O dia em que Flávio Bolsonaro passou da negativa gargalhada à confirmação constrangedora em questão de horas. O dia em que R$ 134 milhões deixaram de ser "mentira" e viraram "patrocínio privado". O dia em que o Rachadinha descobriu que, no século XXI, até áudio de WhatsApp vira prova. Bem-vindo ao futuro, senador!
E por hoje é só, minha gente. Neste país da piada pronta, continuo servindo seu cafezim com uma colherinha de sarcasmo e pitadas de bom humor. Porque seja golpe, dosimetria ou Caso Master, a mídia independente segue de olho atento a cada passo dessa corja que quer destruir o Brasil. E eles vão ter que nos engolir: sem anistia, sem mimimi, e (se depender dos áudios do 01) sem um pangaré na presidência também.
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